Renan Santos compara vender a Petrobras a terceirizar as Forças Armadas
Candidato do Missão rejeita privatização da estatal, mas promete abrir refino e distribuição ao setor privado
O candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) afirmou nesta quarta-feira, 19, em entrevista ao Metrópoles, que é contra privatizar a Petrobras e comparou a venda da estatal a entregar a defesa nacional para terceiros. "Vender a Petrobras e permitir que outras nações ditem as nossas políticas de energia é uma loucura, é como terceirizar as Forças Armadas", disse.
Para o candidato, o controle das reservas de petróleo e das decisões de política energética precisa permanecer sob comando nacional. "A gente não pode fazer isso, é uma questão estratégica", afirmou. Ele justificou a posição pelo cenário internacional: "Nós estamos num mundo em guerra, onde recursos naturais serão utilizados como ferramenta de guerra".
A defesa da estatal não se estende ao setor inteiro. Renan Santos disse que pretende ampliar a participação privada em elos específicos da cadeia. "Vamos trazer empresas para participar do refino, abrir o mercado de distribuição de combustíveis", declarou. Em terras raras, defendeu arranjo semelhante, sem criação de nova estatal: "Não é necessário criar estatal. Mas é muito importante termos empresas nessas áreas, fazer consórcios públicos com o setor privado".
O candidato também defende programa nuclear militar
Na mesma quarta-feira, em outra declaração ao Metrópoles, Renan Santos associou a construção de uma bomba atômica à retomada da soberania brasileira. "Não é que vou começar o meu mandato fazendo isso, mas faz parte de um processo inevitável de retomada da soberania", disse. Segundo ele, "o Brasil vai precisar trabalhar geopoliticamente para isso".
O candidato ligou o poder militar à capacidade de o país reivindicar espaço em fóruns internacionais. "O Brasil pleiteia entrar no Conselho de Segurança da ONU, mas não consegue dominar o crime organizado. Para exercer poder, o país vai precisar ter poder", afirmou. Também disse que o desenvolvimento do armamento exigiria negociação prévia com as duas maiores potências: "Então, para ter a bomba atômica, será preciso avisar aos Estados Unidos e à China, que o país será um parceiro geopolítico estável, que está participando de uma indústria bélica internacional".
A proposta esbarra em compromisso vigente. O Brasil é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, e a Constituição admite atividade nuclear em território nacional apenas para fins pacíficos. Desenvolver artefato militar exigiria denunciar o tratado e alterar a regra constitucional, dois movimentos que dependem de maioria no Congresso. O próprio texto do acordo prevê a saída de um signatário mediante aviso prévio de três meses, com justificativa apresentada ao Conselho de Segurança da ONU, o mesmo colegiado em que o candidato quer que o Brasil ganhe assento permanente.
Na área de segurança, Renan Santos defendeu articulação regional contra facções: "O Brasil tem que ter uma força militar conjunta para combater o crime organizado junto com outros países da América do Sul".
A posição energética destoa do discurso liberal na economia
O conjunto das declarações coloca o candidato do Missão numa posição híbrida. Ele rejeita a venda da Petrobras e trata energia como ativo estratégico de Estado, ao mesmo tempo em que promete abrir refino e distribuição ao capital privado e dispensa nova estatal para terras raras. É um desenho em que a União mantém o controle acionário do topo da cadeia e transfere o meio dela à concorrência. Nenhuma das duas frentes foi acompanhada de estimativa de investimento, de prazo ou de impacto no preço do combustível para o consumidor.
Renan Santos disputa a Presidência pelo Missão, partido que registrou candidatura no prazo encerrado em 15 de agosto. Ele declarou patrimônio de R$ 800 mil à Justiça Eleitoral, conforme os dados do sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral. Leia também o que Renan Santos disse sobre Kassab e o apoio a Lula.