Gakiya explica recusa a Caiado: nao vou perder a aposentadoria
Promotor do Gaeco de Sao Paulo disse que so completa os requisitos para se aposentar em dezembro e que a decisao nao encerra a conversa com o pre-candidato
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, explicou por que recusou o convite do pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) para integrar um eventual Ministério da Segurança Pública. Em entrevista ao jornal O Globo publicada na sexta-feira, 14, após evento na zona oeste de São Paulo, ele apontou a aposentadoria como razão central.
"Não vou perder uma aposentadoria que eu lutei a vida inteira por esse ou aquele cargo", afirmou Gakiya.
O promotor acumula 35 anos de Ministério Público e é um dos investigadores mais conhecidos do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo ele, os requisitos legais de idade e tempo de serviço para a aposentadoria só se completam em dezembro de 2026.
Há ainda um impedimento em vigor enquanto ele permanecer na ativa: membros do Ministério Público não podem exercer atividade político-partidária. Qualquer avaliação sobre assumir função em governo, disse Gakiya, ficaria para depois de eventual aposentadoria.
"Se eu achar que eu posso contribuir melhor fora do Ministério Público, aí eu vou pensar. Mas perder a aposentadoria eu não vou", declarou.
A restrição não é interna do Ministério Público. A Constituição veda aos membros da instituição o exercício de atividade político-partidária, regra que alcança a filiação e a participação em campanha enquanto o promotor estiver na ativa. A saída para quem quer disputar cargo ou assumir função de governo é a aposentadoria ou a exoneração, o que explica por que a data de dezembro pesa na conta.
Gakiya atua no Gaeco, estrutura do Ministério Público estadual voltada ao combate ao crime organizado, e responde por linhas de investigação sobre a cúpula do PCC. O trabalho o colocou sob esquema de proteção nos últimos anos, condição já noticiada e que também compõe o quadro de qualquer mudança de função.
A reacao de Caiado
O pré-candidato telefonou ao promotor depois que o convite se tornou público. Segundo o relato de Gakiya, Caiado pediu desculpas e explicou que a informação saiu "meio sem querer", reafirmando em seguida a intenção: "Eu realmente quero convidá-lo".
O convite foi divulgado em 10 de agosto, quando o governador de Goiás sinalizou o nome do promotor para a pasta em um eventual governo. Depois da recusa, Caiado afirmou que busca um nome com o mesmo perfil para a área.
Onde os dois divergem
A recusa não é apenas de agenda pessoal. Promotor e pré-candidato defendem estratégias distintas de enfrentamento ao crime organizado, e a diferença aparece no ponto que virou bandeira eleitoral do tema.
Caiado defende enquadrar facções como PCC e Comando Vermelho na legislação antiterrorismo, com uma Lei do Terrorismo Doméstico. Gakiya é contrário à classificação e já criticou publicamente o enquadramento adotado pelos Estados Unidos para organizações criminosas brasileiras.
O argumento de quem defende a mudança é que a moldura de terrorismo amplia penas e destrava instrumentos de investigação e de cooperação internacional. Do outro lado, a objeção técnica sustenta que as facções operam com finalidade econômica, e não política, o que desloca o caso do conceito jurídico de terrorismo e pode fragilizar acusações em juízo.
Segurança pública deve ocupar espaço central na disputa de 2026, e a formação de equipes técnicas antecipa parte do debate. A escolha de nomes ligados ao Ministério Público e às polícias funciona como sinalização de qual linha o candidato pretende seguir, antes mesmo da apresentação de programa.
Gakiya não descartou uma decisão diferente no futuro. A janela que ele mesmo apontou é dezembro, quando completa os requisitos para deixar a carreira sem perder o benefício.