Entidades dizem que crise no Judiciário esvaziou o debate eleitoral
Diap, Observatório do Clima e Apib afirmam que escala 6x1, clima e minerais críticos saíram do centro da campanha a menos de três semanas do primeiro turno
Entidades sindicais, ambientais e indígenas afirmam que a crise no Judiciário empurrou para segundo plano as pautas que pretendiam levar à campanha de 2026. A avaliação foi reunida em reportagem da Agência Brasil publicada no domingo, 13 de setembro.
A eleição será em 4 de outubro. Faltam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno, e a disputa tem concorrido com a sessão do Supremo Tribunal Federal que analisa a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, além dos desdobramentos do caso Banco Master.
Para a presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, havia avanço nas pautas trabalhistas até agosto. A lista do setor inclui o fim da escala 6x1, a geração de emprego e a regulamentação da negociação coletiva no serviço público. Segundo ela, a crise institucional jogou esses temas para segundo plano.
O que cada entidade diz que ficou de fora
O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, afirma que as mudanças climáticas deveriam estar no centro do debate, mas que poucos candidatos as citam entre as principais preocupações, e que parte deles nega o problema.
O coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Alcebias Constantino, aponta os minerais críticos como o tema que mais interessa aos povos indígenas nesta eleição, pelo efeito sobre a demarcação de territórios. A entidade informou que terá 56 candidatos apoiados: 33 a deputado estadual, 19 a deputado federal, 2 ao Senado, 1 a governador e 1 a suplente.
Já o coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, sustenta que estas são as eleições mais relevantes desde 1988 e que temas como desenvolvimento econômico, soberania nacional, defesa, educação e tecnologia estão ausentes dos programas de governo registrados.
"O debate eleitoral está prejudicado porque, no primeiro plano, as atenções estão todas voltadas para os reflexos da atual crise institucional do Poder Judiciário", disse a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, à Agência Brasil.
Quem foi ouvido
A reportagem ouviu seis organizações: Fenaj, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Diap, Observatório do Clima e Apib. Nenhuma entidade do setor produtivo, do agronegócio ou do comércio foi consultada, e o texto não traz posição divergente sobre o diagnóstico.
A avaliação da SBPC, de que a ciência não entrou na campanha, já havia sido registrada pelo Resenhando em 14 de setembro.
A concentração da cobertura no Judiciário tem efeito prático sobre a campanha. Programa de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral não vincula o candidato eleito, e o material só vira compromisso cobrável quando entra no debate público durante a disputa. É essa janela que as entidades dizem estar perdendo.
O calendário eleitoral segue correndo em paralelo à crise. O prazo da prestação de contas parcial das campanhas venceu em 13 de setembro, e as contas do primeiro turno terão de ser enviadas entre 5 de outubro e 3 de novembro, pelo sistema Conta+JE.