SBPC diz que a ciência ainda não entrou na campanha eleitoral
Presidenta da entidade afirma que o Observatório das Eleições reuniu pouco mais de cem candidaturas engajadas, uma federal e nenhuma estadual
A presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, afirmou que a ciência não entrou na campanha eleitoral de 2026 e que temas como transição energética, envelhecimento da população e risco de novas crises sanitárias seguem fora do debate. A avaliação foi dada em entrevista à Agência Brasil publicada nesta segunda-feira, 14 de setembro, a menos de três semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Francilene é doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e preside a SBPC desde 2025. Para ela, a crise institucional em torno do caso Banco Master empurrou eleitores e candidatos para uma escolha que considera falsa.
"O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda", disse à Agência Brasil.
Segundo a dirigente, a ciência depende de "regras estáveis, orçamento previsível e atenção", e o assunto tem aparecido de forma periférica porque a pauta eleitoral está ocupada por temas que, na avaliação dela, a sociedade não escolheu.
O que a entidade leva aos candidatos
A SBPC criou o Observatório das Eleições para apresentar às campanhas um conjunto de mais de cem propostas de políticas públicas. A entidade aponta como prioridades a regulamentação da exploração de terras raras, o enfrentamento das mudanças climáticas nas cidades, a preparação para novas crises pandêmicas, a transformação digital e a soberania em inteligência artificial.
O balanço de adesão é o dado mais concreto da entrevista. Pelo levantamento da própria entidade, a plataforma reunia até aquele momento pouco mais de uma centena de candidaturas engajadas, com uma única de âmbito federal e nenhuma estadual.
Francilene afirma que a ciência historicamente fica à margem das eleições e cita duas exceções recentes: 2020, ano marcado pela pandemia de covid-19, e o período seguinte às enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, às queimadas no Centro-Oeste e à escassez hídrica no Norte e no Nordeste. Nesses momentos, diz ela, a temática ganhou espaço no debate público.
A agenda que a entidade quer cobrar do próximo governo
Entre os pontos que a SBPC classifica como estratégicos está a capacidade de o país processar os minerais críticos que tem no subsolo, em vez de exportá-los sem beneficiamento. Terras raras são insumo de ímãs de alto desempenho usados em turbinas eólicas, veículos elétricos e equipamentos de defesa, e a disputa por eles entrou na agenda comercial de Estados Unidos e China.
O envelhecimento populacional é outro item da lista. Também aparecem a transição energética e a chamada soberania digital, termo que a entidade usa para tratar da dependência de infraestrutura e de modelos de inteligência artificial desenvolvidos fora do país.
A entrevista não traz resposta das campanhas presidenciais às afirmações da SBPC, e as candidaturas não divulgaram manifestação sobre o levantamento do Observatório das Eleições. O Resenhando não teve acesso aos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral para comparar o conteúdo de cada programa com a lista de prioridades da entidade.
A SBPC é a mais antiga entidade de representação da comunidade científica brasileira e costuma apresentar cartas de compromisso a candidatos em anos eleitorais. Outras organizações fizeram o mesmo movimento neste ciclo, entre elas a Fiocruz, que divulgou documento com prioridades para a área de saúde.
O primeiro turno das eleições gerais ocorre em 4 de outubro, com disputa por Presidência da República, governos estaduais, duas vagas por unidade da federação no Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas. A política de ciência e tecnologia também passa por decisões do Executivo fora do calendário eleitoral, como o veto presidencial à transformação de Cefets em universidades tecnológicas (leia aqui).