Economia

Disputa entre EUA e China abre espaco ao Brasil, diz Troyjo

Ex-presidente do banco dos Brics aponta agro, minerais criticos e logistica como os setores com margem para crescer

O economista Marcos Troyjo afirmou que a rivalidade entre Estados Unidos e China amplia o espaco do Brasil no comercio internacional, mas que a carga tributaria sobre mineracao e refino impede o pais de aproveitar boa parte dessa abertura. A avaliacao foi dada em entrevista ao evento Money Week e publicada pela Gazeta do Povo em 14 de setembro.

Troyjo presidiu o Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics, e foi secretario especial de Comercio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministerio da Economia. Ele descreve o cenario atual como uma "guerra fria 2.0" entre as duas maiores economias do mundo.

Os numeros que ele apresenta

O ponto de partida da analise e a dimensao do fluxo que esta em disputa. Segundo Troyjo, o comercio entre Estados Unidos e China movimenta US$ 1,8 bilhao a cada 24 horas. A participacao brasileira nas importacoes americanas fica entre 0,8% e 1,1%, faixa que ele aponta como a medida do espaco ainda nao ocupado.

No agro, o economista compara os dois maiores exportadores do setor: as vendas brasileiras somam US$ 169,2 bilhoes, contra US$ 171 bilhoes das americanas. A diferenca, na leitura dele, e pequena o bastante para que uma reacomodacao de rotas comerciais mude a posicao.

Ele cita ainda o desempenho recente com a Uniao Europeia: as vendas brasileiras ao bloco cresceram US$ 2 bilhoes nos dois primeiros meses do periodo analisado, alta de 26%. Com o acordo entre Mercosul e Uniao Europeia em vigor, a estimativa apresentada e de ate US$ 7 bilhoes adicionais.

Na infraestrutura, Troyjo menciona R$ 300 bilhoes previstos em investimentos em logistica e R$ 262 bilhoes em leiloes realizados entre 2023 e 2025, valores que ele associa a capacidade de escoar o que o pais produz.

A trava que ele aponta

O gargalo identificado na entrevista nao esta na producao, e sim no que acontece depois dela. Troyjo afirma que o Brasil tributa a mineracao e o refino de minerais criticos em ate 33%, enquanto outros paises cobram entre 18% e 19%. O efeito, segundo ele, e desestimular o investidor a refinar o material dentro do territorio nacional.

A consequencia pratica e conhecida do setor: o pais exporta o minerio e importa o produto processado, transferindo a etapa de maior valor agregado para quem tributa menos. Troyjo usa a expressao "loteria geologica" para descrever a posicao brasileira em reservas de minerais criticos, insumo central para baterias, semicondutores e equipamentos de energia renovavel.

O economista tambem trata os desafios brasileiros como questao de alcance global. "Problemas deixam de ser do Brasil, sao problemas do mundo", afirmou, ao se referir a dependencia internacional de insumos que o pais concentra.

Troyjo nao detalha quais tributos compoem o percentual de ate 33% que atribui a mineracao e ao refino, nem indica o periodo a que se referem os dados de exportacao agricola citados. A comparacao com a faixa de 18% a 19% de outros paises tambem aparece sem a identificacao das jurisdicoes.

O Ministerio de Minas e Energia e o Ministerio da Fazenda nao comentaram as avaliacoes na materia da Gazeta do Povo. O marco dos minerais criticos, que trata do regime aplicavel ao setor, ainda tramita no Congresso, como registrado em Marco dos minerais criticos aguarda votacao no Senado.

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