Economia

Fonteles, cotado para a Fazenda, mantém secretário e diz "viva o equilíbrio fiscal"

Governador do Piauí tem déficit de R$ 1,25 bilhão em 2025 e é nome apoiado por parte do mercado

Neste texto3 tópicos
  1. O que o governador diz sobre as contas do Piauí
  2. O que os dados oficiais mostram
  3. Como o mercado enxerga o nome

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), anunciou nesta segunda-feira, 2, pelas redes sociais, que o secretário estadual da Fazenda, Emílio Joaquim de Oliveira Júnior, continua no cargo no próximo mandato. Fonteles encerrou a mensagem com "Viva o Equilíbrio Fiscal!!!". O governador é um dos nomes mais cotados para assumir o Ministério da Fazenda no quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo o Estadão, ele nega ter discutido o assunto com o presidente ou com outras pessoas. Na mensagem, agradeceu ao secretário por aceitar "a renovação dessa missão tão importante para garantir o equilíbrio fiscal do Estado do Piauí".

O que o governador diz sobre as contas do Piauí

Na publicação, Fonteles afirmou que o Piauí tem a maior taxa de investimento público em relação à receita entre os estados, capacidade de pagamento B+ na classificação do Tesouro Nacional e despesa de pessoal de 38%. Disse ainda que o estado é um dos dois únicos sem dívida com o governo federal. Os números são do próprio governador e não foram checados de forma independente nas reportagens consultadas.

Em entrevista ao Estadão, ele já havia dito que o governo Lula fará equilíbrio fiscal cortando privilégios, e não benefícios sociais. A fala encontra o discurso do presidente, que na sexta-feira garantiu que programas sociais não serão extintos no Orçamento de 2027. A Resenhando publicou os detalhes da promessa de remanejar R$ 20 bilhões.

O que os dados oficiais mostram

A Gazeta do Povo levantou outro retrato. De acordo com a Secretaria de Planejamento do Piauí, o déficit fiscal do estado foi de R$ 1,25 bilhão em 2025. O orçamento saltou de R$ 17,6 bilhões, em 2022, para R$ 30,6 bilhões, em 2025. A própria secretaria projeta que a situação só será revertida em 2029.

A arrecadação ajudou a ampliar o investimento, impulsionada pela expansão da fronteira agrícola, mas o efeito no emprego foi menor. Pelo IBGE, a taxa de desemprego piauiense no segundo trimestre de 2026 era de 8,3%, a quarta maior do país. O rendimento real médio cresceu 10% entre o fim de 2022 e o início de 2026, menos da metade do ritmo de Pernambuco, segundo a Gazeta.

Como o mercado enxerga o nome

Parte do mercado vê Fonteles com simpatia pela formação técnica: é matemático e tem mestrado em economia matemática pelo Impa, além de ter sido secretário da Fazenda do Piauí antes de se eleger. Analistas do BTG Pactual apontam que ele ou o vice-presidente Geraldo Alckmin reduziriam a percepção de risco dos investidores.

O estrategista de macro da Genial Investimentos, Roberto Motta, faz uma ressalva: o ministro "vai ter que entrar falando: 'eu tenho o Lula comigo'". Sem autorização explícita do Planalto para cortar despesas, a credibilidade se desgasta. O economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni, teme medidas paliativas, como corte de gasto não obrigatório e busca de receita extra, sem tocar nas despesas obrigatórias que dominam o Orçamento. A Gazeta registra que Lula não apresentou compromisso com ajuste fiscal durante a campanha.

Há ainda um obstáculo político. Fonteles foi reeleito em 4 de outubro com 70,90% dos votos válidos, a maior votação percentual do país. Pelo levantamento do Broadcast Político, se aceitar um cargo no governo federal sem tomar posse no Piauí, será a primeira vez em 108 anos que um político eleito pelo voto popular decide não assumir o governo estadual.

Lula ainda não anunciou o nome do ministro. A sugestão de Gilberto Kassab de uma dupla nos moldes de Palocci e Meirelles mostra que o desenho da equipe econômica segue em aberto. Procurada pela imprensa, a Presidência não havia confirmado convite até a publicação das reportagens citadas.