Durigan diz que dívida preocupa, mas nega crise fiscal e culpa os juros
Ministro da Fazenda afirma que o resultado do governo não explica o avanço do endividamento desde 2024 e atribui a alta à taxa de juros
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira, 6, que o crescimento da dívida pública brasileira o preocupa, mas negou que o país viva uma crise de controle das contas. Segundo ele, o avanço do endividamento desde 2024 decorre da taxa de juros, e não do resultado fiscal do governo.
As declarações foram reproduzidas nesta quinta-feira pelo Correio Braziliense e pelo Diário do Grande ABC. Durigan é ministro da Fazenda desde março de 2026, quando substituiu Fernando Haddad, que deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo.
O que disse o ministro
O ministro separou dois diagnósticos. Reconheceu que a trajetória projetada para a dívida nos próximos anos exige atenção e, ao mesmo tempo, sustentou que o governo tem entregado melhora no resultado primário.
O que parece preocupante é a projeção da dívida daqui para a frente. Eu sei lidar melhor com o lado fiscal, fizemos um ajuste de dois pontos percentuais do PIB. É com esse compromisso que vamos para os próximos quatro anos, melhorando as contas públicas.
Durigan afirmou ainda que, desde 2024, o resultado do governo não é responsável pelo aumento da dívida pública, e sim a taxa de juros. A avaliação repete a linha que a Fazenda tem sustentado publicamente desde o início do ano, de que a melhora do lado fiscal ajudaria a abrir espaço para a redução da Selic.
O peso dos juros na conta
A dívida bruta do governo geral cresce por dois canais: o resultado primário, que mede receitas menos despesas sem contar juros, e a despesa financeira, formada pelo pagamento de juros sobre os títulos públicos em circulação. Com a Selic no patamar atual, a segunda parcela responde pela maior fatia do avanço.
O argumento tem contestação no mercado e na oposição. Críticos apontam que a taxa de juros elevada é, ela própria, resposta à percepção de risco fiscal e à inflação acima do centro da meta, o que devolve a responsabilidade ao lado do gasto. O boletim Focus divulgado em 3 de agosto projetava IPCA acima do teto da meta e Selic em 13,75%.
A discussão ganha peso no calendário eleitoral. O governo anunciou neste ano uma sequência de programas de crédito e medidas de estímulo, e a oposição classifica o conjunto como pacote eleitoral incompatível com o discurso de ajuste. O ministro nega descontrole das contas.
O endividamento das famílias também bateu recorde neste mês: o indicador da Confederação Nacional do Comércio chegou a 82% em julho, o maior da série histórica. O ministro atribuiu o avanço do endividamento, no setor público e entre as famílias, ao custo do dinheiro.
O ajuste de dois pontos percentuais do PIB citado pelo ministro se refere à variação do resultado primário acumulada desde o início do mandato, medida que compara receitas e despesas sem contar o pagamento de juros. É o indicador que o governo usa para sustentar que o lado do gasto está sob controle, e o mesmo que economistas críticos consideram insuficiente diante do tamanho da dívida.
Para o contribuinte, a discussão não é abstrata. Cada ponto de juro pago sobre os títulos públicos sai de arrecadação que poderia financiar serviço ou reduzir tributo, e o custo do crédito no varejo acompanha a taxa básica. É esse encadeamento que liga a projeção da dívida ao endividamento recorde das famílias registrado em julho.
Em julho, o ministro já havia afirmado que a Fazenda é a pasta menos responsável pelos juros altos e defendido a continuidade do ajuste fiscal. A posição sobre a estatal dos Correios e o plano de recuperação da empresa foi tratada em Durigan e o prejuízo de R$ 10 bilhões dos Correios.
O Ministério da Fazenda não detalhou até a publicação desta reportagem quais medidas adicionais compõem o compromisso citado pelo ministro para os próximos quatro anos.