Economia

Bolsa Família chega a 3,9 milhões de cadastros de quem mora sozinho

Grupo cresceu 344 mil desde janeiro e responde por 19,9% das famílias atendidas em julho

O número de beneficiários do Bolsa Família que declaram morar sozinhos chegou a 3,9 milhões em julho de 2026, segundo dados do programa divulgados pela Folha de S.Paulo e reproduzidos pela Gazeta do Povo nesta segunda-feira, 24. O total corresponde a 19,9% das famílias atendidas no mês.

O grupo, classificado como cadastro unipessoal, cresceu 344 mil desde janeiro deste ano, quando estava em cerca de 3,5 milhões. No mesmo intervalo, o total de famílias no programa passou de 18,8 milhões para 19,3 milhões.

O que é o cadastro unipessoal

Cadastro unipessoal é o registro de quem declara viver sozinho no Cadastro Único. A categoria é acompanhada de perto pelo governo porque, historicamente, foi usada para divisão artificial de famílias: um mesmo núcleo se registra como vários domicílios de uma pessoa, o que amplia o número de benefícios recebidos.

Foi por isso que, em 2023, o governo estabeleceu uma referência de 16% de unipessoais no conjunto dos beneficiários e determinou estudos específicos em municípios em que a proporção passasse de 40%. O percentual registrado em julho está quase quatro pontos acima daquela referência.

A referência de 16% não é um teto legal nem gera corte automático. Funciona como parâmetro de fiscalização: acima dela, o cadastro entra no radar da revisão, e municípios com concentração muito alta passam a ser examinados individualmente. O indicador é acompanhado desde a reformulação do programa em 2023, quando o governo revisou o cadastro herdado do Auxílio Brasil.

A resposta do ministério

Em nota, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social afirmou não identificar sinais de nova divisão artificial de cadastros e atribuiu a variação a "fluxos normais de entrada e saída" no programa. A pasta não informou projeção para o fechamento do ano.

O governo mantém em curso uma ação de qualificação cadastral que abrange 11.294.149 famílias em 2026. As exclusões decorrentes dessa revisão estão previstas para começar a partir de novembro.

Há ainda um fator jurídico no caminho da fiscalização. Um acordo firmado entre o INSS, o MDS e a Defensoria Pública da União determina que, até julho de 2027, a concessão do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada a pessoas que moram sozinhas não dependa de visita domiciliar prévia. A visita era um dos instrumentos usados para checar a informação declarada.

O acordo tem lógica de acesso: a exigência de visita prévia atrasava a concessão a pessoas que de fato moram sozinhas, entre elas idosos e pessoas com deficiência atendidas pelo BPC. O efeito colateral é que remove, até 2027, a checagem presencial de uma declaração que só o próprio beneficiário faz.

O que o número significa para o Orçamento

Cada cadastro unipessoal aprovado gera um benefício próprio. A proporção de quem mora sozinho, portanto, tem efeito direto sobre a despesa do programa, que é uma das maiores linhas de gasto obrigatório da União.

O Congresso analisa neste semestre um crédito suplementar de R$ 185,5 bilhões destinado a benefícios sociais, sob a discussão da regra de ouro.

O crescimento do grupo se dá em ano eleitoral, o que colocou o indicador sob observação de veículos que acompanham o programa. O governo, como registrado na nota, sustenta que a variação decorre da rotina de entrada e saída de beneficiários e não de manobra cadastral.

A conferência é possível: as bases do Cadastro Único e do Bolsa Família são públicas e trazem o recorte por município, o que permite verificar onde a proporção de unipessoais supera os 40% que acionam estudo específico.

Os dados do Cadastro Único são atualizados mensalmente pelo MDS e ficam disponíveis nas bases públicas do ministério, o que permite acompanhar a evolução do indicador mês a mês.

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