Mercado eleva IPCA de 2027 a 5,3% após reeleição de Lula, aponta pesquisa da BGC
Mediana da corretora fica acima dos 4,34% do Focus anterior à votação; dólar fechou sexta a R$ 5,44
Neste texto3 tópicos
Analistas de mercado ouvidos pela corretora BGC Liquidez passaram a projetar inflação de 5,3% em 2027 e de 4,3% em 2028, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. A mediana da pesquisa, divulgada neste sábado (31) pelo Jornal de Brasília a partir de texto da Folha de S.Paulo, está bem acima das estimativas do boletim Focus, do Banco Central, anterior à votação.
Quanto as projeções subiram?
A última edição do Focus antes do segundo turno, com dados de 23 de outubro, trazia mediana de 4,34% para o IPCA de 2027 e de 3,75% para 2028, conforme a série de expectativas disponível no Banco Central. A meta de inflação é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
- IPCA de 2027: de 4,34% no Focus de 23/10 para 5,3% na pesquisa da BGC;
- IPCA de 2028: de 3,75% para 4,3%;
- Dólar: de R$ 4,99 no fim da semana retrasada para R$ 5,44 no fechamento de sexta (30).
A BGC ouviu cerca de 30 participantes, entre gestores e tesourarias de bancos. Segundo a corretora, 11% deles veem inflação acima de 6% em dezembro de 2027. A pesquisa costuma antecipar em duas semanas o Focus, que reúne mais respondentes, e o próximo boletim do Banco Central sai na terça-feira (3).
Os dois levantamentos não são equivalentes: o Focus tem mais de 140 respondentes por semana, e a BGC, cerca de 30, com perfil que revisa números mais rápido. Por isso a diferença entre eles não indica, por si só, o que o Banco Central divulgará na terça.
Por que o mercado revisou a inflação?
O economista de inflação e commodities da BGC, Carlos Thadeu, atribui a piora a dois fatores: a ausência de uma âncora fiscal, com a leitura de que o governo vai gastar mais, e o dólar mais forte. "O mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida para o Flávio Bolsonaro, com a expectativa de cortes de gastos e Selic mais baixa. Com a reeleição do Lula, essa precificação foi devolvida", disse, segundo o texto.
A maior pressão, afirma ele, vem dos preços administrados, em especial combustíveis. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, e o câmbio mais fraco encarece o produto no mercado interno. Para Thadeu, sem os riscos fiscais o dólar de equilíbrio estaria perto de R$ 4,50. O economista também citou a aprovação do fim da escala 6x1 como fonte de pressão sobre os preços em 2027, porque exigiria ao menos 10% a mais de mão de obra, na estimativa dele.
O que dizem os números das contas públicas?
A reportagem da Folha lembra que economistas veem a necessidade de um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos e que a dívida bruta chega a quase 83% do PIB, o maior nível em cinco anos. O governo prevê déficit primário de R$ 67,3 bilhões neste ano, o equivalente a 0,5% do PIB. O texto não registra posição do Ministério da Fazenda sobre as projeções.
O movimento acompanha o que outras casas já anotaram. O Itaú revisou o cenário de 2027 depois da eleição, e o dólar fechou a semana perto de R$ 5,45. A régua oficial vem na terça-feira (3), quando o Banco Central publica o novo Focus.