Cultura

Seis empresas vão marcar textos de IA; xAI, de Musk, fica de fora

Anthropic, Google, Meta, Microsoft, Mistral e OpenAI assinaram código europeu de transparência; marca d'água fica nos metadados e é invisível ao leitor

Seis das maiores empresas de inteligência artificial do mundo passarão a marcar os textos gerados por seus chatbots para indicar a origem robótica do conteúdo. Anthropic, Google, Meta, Microsoft, Mistral e OpenAI assinaram o compromisso, firmado na União Europeia. A xAI, de Elon Musk, dona do Grok, foi a única grande companhia do setor que não aderiu.

O documento é um código de práticas e transparência para conteúdos gerados por inteligência artificial. Pelas regras, a resposta produzida por um modelo compatível recebe uma marca d'água imperceptível inserida diretamente no conteúdo. A informação foi divulgada nesta quarta-feira, 12, e reproduzida no Brasil pelo Jornal de Brasília.

A marcação não altera o texto que o usuário lê. Segundo a descrição técnica apresentada pelas empresas, a assinatura fica nos metadados e é detectável por programas de computador, sem mudar o significado, a qualidade ou a legibilidade da resposta. Arquivos gerados recebem metadados de proveniência com assinatura digital, quando o formato permite.

O que muda para quem usa

Na prática, nada muda na tela. O leitor de um texto produzido por um desses modelos não verá selo, aviso ou rótulo visível. A verificação depende de uma ferramenta capaz de ler a marcação, o que transfere a checagem para quem recebe o conteúdo, não para quem o publica.

A escolha por uma marca invisível tem explicação de mercado. Pesquisa da OpenAI de 2024 apontou que cerca de 30% dos usuários reduziriam o uso da plataforma caso os textos exibissem marcas visíveis. O receio das empresas é de estigmatização do conteúdo e de migração de usuários para serviços concorrentes sem qualquer marcação.

A marca d'água sobrevive à cópia e à colagem do texto, segundo as companhias, mas o próprio setor reconhece limites. Stephen Turner, cientista de dados da Universidade da Virgínia, aponta três falhas: conteúdo modificado pode gerar falso positivo, conteúdo sem marca pode ainda assim ter sido gerado por inteligência artificial e texto escrito por humano pode ser sinalizado de forma incorreta.

A dificuldade é conhecida no meio técnico. Detectores de texto gerado por inteligência artificial baseados apenas em análise estatística têm histórico de erro alto, e a marca d'água nos metadados é a tentativa de substituir a inferência por um sinal deliberado, inserido na origem. O método só funciona, porém, se todos os fornecedores relevantes participarem.

Alcance e prazos

Embora a jurisdição do código seja europeia, o compromisso terá efeito global. Modelos lançados na Europa a partir de 2 de agosto de 2026 precisam cumprir a regra. Os modelos já em operação estão sendo atualizados durante um período de transição.

A ausência da xAI significa que o Grok continuará entregando textos sem qualquer marcação de origem, inclusive para usuários brasileiros. A empresa não informou se pretende aderir ao código mais adiante.

O código é de adesão voluntária e funciona como forma de demonstrar conformidade com o regulamento europeu de inteligência artificial, que prevê obrigações de transparência para conteúdo sintético. Quem não assina não fica automaticamente fora da lei, mas perde o caminho mais simples de comprovar o cumprimento e passa a ter de demonstrá-lo por conta própria diante dos reguladores do bloco.

No Brasil, a regulação da inteligência artificial ainda tramita no Congresso. O PL 2.338/2023, que cria o marco legal do setor, foi tema de debate no Conselho de Comunicação Social do Congresso em 3 de agosto, como o Resenhando registrou na ocasião. Na área eleitoral, a rotulagem já é obrigatória: a Resolução 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral exige aviso explícito em conteúdo de campanha produzido ou alterado por inteligência artificial.

  • Assinaram: Anthropic, Google, Meta, Microsoft, Mistral e OpenAI
  • Não assinou: xAI, desenvolvedora do Grok
  • Como funciona: marca d'água nos metadados, invisível ao leitor
  • Vigência: modelos lançados na Europa desde 2 de agosto de 2026
  • Alcance: global, apesar da jurisdição europeia
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