Transporte e insegurança levam 4 em cada 10 mulheres a desistir de emprego
Pesquisa com 564 mulheres em 73 cidades mostra que falta de segurança no deslocamento custa vaga de trabalho, faculdade e renda
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Quatro em cada dez mulheres brasileiras, ou 39% delas, já desistiram de uma vaga de emprego ou de uma oportunidade profissional por causa da dificuldade de deslocamento. O dado está na pesquisa "O Direito de Ir, Vir e Viver", divulgada em 23 de setembro pela Agência Brasil e conduzida pela consultoria Indique em parceria com a organização Think Eva e o aplicativo 99.
O levantamento ouviu 564 mulheres de 18 a 60 anos, em dez capitais e mais 73 cidades brasileiras, entre 8 de junho e 9 de julho de 2026. Entre as entrevistadas, 54% já deixaram de comparecer a compromissos de trabalho por causa do trajeto, e 21% abandonaram curso de capacitação ou faculdade pelo mesmo motivo.
O que pesa mais na decisão de não ir
Insegurança ou violência no caminho é o principal motivo apontado, citado por 32% das mulheres. Em segundo lugar vem a falta de dinheiro para custear o deslocamento (22%), seguida da precariedade do transporte público (15%) e da distância até o destino (14%). A combinação de custo e risco aparece também fora do trabalho: 80% das entrevistadas disseram já ter faltado a encontros e eventos, 33% deixaram de lado atividades físicas ou de lazer, 32% evitaram visitar parentes e amigos e 69% pararam de sair à noite.
A pesquisa também mediu o quanto a rotina de deslocamento é moldada pelo medo: 87% das entrevistadas dizem evitar certos bairros, 73% planejam os horários das saídas em função da segurança, 63% evitam determinados meios de transporte e 60% fazem trajetos alternativos mais longos para se sentir protegidas. Assédio sexual durante o deslocamento foi relatado por 89% das mulheres ouvidas, com maior incidência dentro de ônibus (68,8%), a pé (60,8%) e em metrô ou trem (50,2%).
O custo que não aparece na tarifa

O levantamento mostra ainda que 68% das entrevistadas não têm veículo próprio, 80% recorrem a carros por aplicativo quando avaliam que o trajeto é arriscado e 52% gastam mais de uma hora por dia só no deslocamento. Esses números convertem insegurança em gasto extra de bolso e em tempo fora do mercado de trabalho. O preço de uma cidade que não garante deslocamento seguro não aparece na tarifa do ônibus: aparece na vaga que a mulher não ocupa.
O recorte por idade e por região
A pesquisa também cruzou os dados por faixa etária e por porte de cidade. Mulheres mais jovens, de 18 a 29 anos, relataram maior incidência de assédio no trajeto e maior propensão a trocar de rota por medo, enquanto mulheres acima de 40 anos concentraram mais respostas sobre abandono de atividade física e de lazer por insegurança. Nas cidades menores, fora das dez capitais pesquisadas, a reclamação mais comum não foi o assédio, e sim a falta de opção de transporte à noite, o que empurra a decisão para o aplicativo pago ou para simplesmente não sair.
O relatório não detalha o valor médio gasto com transporte por aplicativo nem o impacto na renda disponível das entrevistadas, lacuna que a própria Indique reconhece como próximo passo da pesquisa. Ainda assim, o cruzamento com os números oficiais de ocupação já aponta direção clara: enquanto a diferença de desemprego entre homens e mulheres persiste, o motivo mais citado pelas próprias mulheres para recusar uma vaga não é falta de qualificação, é o caminho até ela.
Dados do IBGE levantados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua no primeiro trimestre de 2026 mostram que a taxa de desocupação entre mulheres (7,3%) já era 2,2 pontos percentuais maior que a dos homens (5,1%). No segundo trimestre, mesmo sendo maioria da população em idade de trabalhar, as mulheres corresponderam a 43,4% das pessoas ocupadas, contra 56,6% de homens, diferença que a pesquisa da Indique ajuda a explicar pelo lado do trajeto até o trabalho, não só pela oferta de vagas.
Quem fez a pesquisa
"O Direito de Ir, Vir e Viver" foi produzida pela Indique, consultoria de diversidade e inclusão racial, em parceria com a Think Eva, organização voltada a pautas femininas, e a 99, aplicativo de transporte. A metodologia completa, amostra e questionário aplicado às 564 entrevistadas constam do relatório publicado pela Agência Brasil.