Brasil

Estudo aponta que 65,1% das mulheres nascidas pobres seguem pobres

Levantamento do Imds com o Prospera Lab cruza dados da Receita, do trabalho e do IBGE para medir quanto a origem familiar determina a renda na vida adulta

Entre os brasileiros que nasceram em famílias do quartil mais pobre da população, 32,9% dos homens e 65,1% das mulheres permanecem nesse mesmo grupo na vida adulta. O dado é de estudo do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em parceria com o grupo de pesquisa Prospera Lab, divulgado na sexta-feira (31).

O levantamento cruza gênero, raça e origem familiar para medir quanto a posição dos pais determina a renda dos filhos. Entre os jovens brancos que vieram dos 25% mais pobres, 36,3% seguem nesse estrato quando adultos. Entre os não brancos na mesma condição de partida, o índice sobe para 51,6%.

A diferença se acentua quando os dois recortes se somam. Das mulheres não brancas nascidas no quartil mais pobre, 69% continuam nele. Entre as mulheres brancas na mesma origem, o percentual é de 52,9%.

Como os dados foram apurados

O estudo usa registros administrativos da Receita Federal, do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério do Desenvolvimento Social, combinados com as pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A metodologia segue o artigo acadêmico "Intergenerational Mobility in the Land of Inequality" (Britto et al., 2025).

O uso de registros administrativos permite acompanhar a trajetória de renda de pais e filhos ao longo do tempo, em vez de depender apenas de declaração do entrevistado em pesquisa amostral. É o mesmo desenho adotado em estudos de mobilidade intergeracional feitos nos Estados Unidos e na Europa, o que abre comparação internacional.

O recorte de renda é feito por quartil, ou seja, a população é dividida em quatro faixas de mesmo tamanho. Ficar no quartil inferior na vida adulta, tendo nascido nele, é o indicador de imobilidade usado pelo levantamento.

"A mobilidade social depende da capacidade de reduzir as desigualdades de origem", afirmou o presidente do Imds, Paulo Tafner.

O que os números não respondem

O estudo mede associação entre origem e destino, e não explica sozinho a causa de cada diferença. A distância entre homens e mulheres com a mesma origem familiar, de 32,9% contra 65,1%, é o resultado que mais destoa, e o dado de renda não separa quanto vem de escolaridade, de interrupção de carreira por cuidado de filhos, de informalidade ou de diferença salarial na mesma função.

A composição da renda familiar também pesa na leitura. Mulher chefe de domicílio sem cônjuge tende a aparecer no quartil inferior mesmo com ocupação formal, porque a renda per capita da casa é dividida por mais pessoas com um só provedor.

O Imds é uma organização privada sem fins lucrativos dedicada à pesquisa sobre mobilidade social e políticas públicas. O instituto não divulgou, junto com os números, recomendação de mudança em programa específico do governo federal.

Os dados foram divulgados pela Agência Brasil em 31 de julho de 2026. A íntegra do estudo está disponível no site do instituto.

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