1% mais rico ganha 31,5 vezes a renda da metade mais pobre, diz relatório
Relatório 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, produzido pelo Dieese, aponta piora na concentração de renda em 2025, ano em que 34 dos 48 indicadores acompanhados avançaram
O rendimento médio do 1% mais rico do Brasil chegou a 31,5 vezes o da metade mais pobre da população em 2025, contra 30,2 vezes em 2024, segundo o relatório 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, divulgado na quarta-feira, 12 de agosto. A piora na concentração de renda aparece no mesmo documento que registra queda do desemprego e da insegurança alimentar.
O levantamento foi produzido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, iniciativa do governo federal, em parceria com o Ministério das Mulheres. É a quarta edição desde 2023. Ao todo, foram acompanhados 48 indicadores: 34 avançaram, o equivalente a 71% do total, 8 pioraram e 6 ficaram estáveis.
Na prática, a razão de 31,5 vezes significa que, para cada R$ 100 recebidos pelos 50% mais pobres, o 1% do topo recebe R$ 3.150. O grupo mais rico reúne cerca de 2,1 milhões de brasileiros. A metade mais pobre soma aproximadamente 106,4 milhões de pessoas. O cálculo é feito pelo Dieese a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.
O que piorou
Além da distância de renda entre topo e base, o relatório aponta retrocesso na comparação entre homens e mulheres. O rendimento médio feminino caiu de 73% para 72,2% do masculino no período, resultado de um avanço de 5,8% na renda dos homens contra 4,8% na das mulheres em 2025.
- Concentração de renda: razão entre o 1% mais rico e os 50% mais pobres subiu de 30,2 para 31,5 vezes.
- Diferença salarial por gênero: mulheres passaram a receber 72,2% do rendimento dos homens, ante 73%.
- Mulheres negras recebem 40% do rendimento dos homens não negros, com desemprego de 8,5%, contra 3,8% entre homens brancos e amarelos.
- Moradia em área de risco geológico: cerca de 4,7 milhões de pessoas expostas, 7% a mais que no ano anterior.
- Ônus excessivo com aluguel, indicador ligado ao déficit habitacional.
- População negra é 56% dos brasileiros e ocupa 70% das vagas do sistema prisional.
O documento também registra que a tributação sobre a renda continua perdendo progressividade nas faixas mais altas, porque parte relevante dos rendimentos do topo vem de ganhos de capital, sujeitos a alíquotas efetivas menores. O relatório pondera que mudanças recentes, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil por mês e a tributação adicional sobre rendimentos acima de R$ 600 mil ao ano, tendem a corrigir parte dessa distorção. A conta da renúncia fiscal da nova faixa de isenção foi estimada pelo governo em cerca de R$ 30 bilhões.
O que melhorou
A maior parte dos indicadores acompanhados registrou avanço. A taxa de desocupação caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% em 2025, e o rendimento médio real cresceu 5,3% no período. A insegurança alimentar moderada ou grave recuou de 9,5% em 2023 para 7,7% em 2024, última medição disponível.
Na renda mais baixa, o contingente de pessoas vivendo com até meio salário mínimo caiu de 53,8 milhões em 2024 para 52,4 milhões em 2025. A parcela em extrema vulnerabilidade, com até um quarto do salário mínimo, passou de 8,2% para 7,9% da população. A desnutrição infantil entre crianças de até cinco anos recuou de 3,6% para 3,4%, e entre idosos de 60 anos ou mais, de 12,4% para 11,9%.
Segundo trecho do relatório reproduzido pela Agência Brasil, o crescimento econômico "beneficiou diferentes grupos sociais, mas não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas". A nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social sobre o estudo destaca que o país "melhorou em 71% dos indicadores de desigualdade monitorados" e detalha os avanços em segurança alimentar, mercado de trabalho e pobreza, sem citar a variação da concentração de renda.
Nem todos os indicadores têm atualização anual. Parte deles depende de pesquisas de orçamento familiar realizadas a cada dois anos, e os dados de analfabetismo funcional são de levantamento de 2024. A íntegra do relatório está disponível no site do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades.