Soja sem proteção contra pragas perderia até 55%, diz estudo da UFV com a CropLife
Pesquisa foi feita em parceria com a associação das fabricantes de defensivos; Ipea e Embrapa apontam riscos
Neste texto3 tópicos
Lavouras de soja sem controle de pragas, doenças e plantas daninhas perderiam até 55% da produtividade, segundo estudo da Universidade Federal de Viçosa (UFV) feito em parceria com a CropLife Brasil, associação que reúne empresas de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas. Os números foram divulgados pela Agência Brasil neste sábado, 31.
A parceira do estudo é uma entidade do setor que vende os produtos em discussão, e isso vale como ressalva para quem lê as projeções. A própria reportagem da Agência Brasil confronta o resultado com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e com a avaliação de um pesquisador da Embrapa sobre os riscos dos agrotóxicos.
O que o estudo simulou
Os pesquisadores trabalharam com simulações de quatro doenças (entre elas a ferrugem-asiática e a mancha-alvo), cinco pragas (como a mosca-branca) e nove plantas daninhas. Compararam três cenários: lavoura sem nenhum controle, com controle parcial (até 40% de proteção) e com controle ótimo (80%).
No cenário ótimo, a produtividade chega a 72 sacas por hectare. No parcial, cai para 52 sacas, 28% menos. Sem controle algum, são 32 sacas, a perda de 55%.
Para compensar essa diferença, segundo a UFV, seria preciso plantar 33,5 milhões de hectares a mais, área próxima à do estado de Goiás. A perda média sem manejo chegaria a 121,3 milhões de toneladas, o equivalente a R$ 223,5 bilhões.
Conta de exportação e efeito no preço
Com controle ótimo, a receita simulada com a exportação de soja é de US$ 44,2 bilhões. Sem controle, recua para US$ 26,6 bilhões, diferença de US$ 17,6 bilhões por safra. A oferta menor elevaria o preço da soja em até 49%, segundo o estudo, e acrescentaria cerca de 0,26 ponto percentual ao IPCA, por causa de óleo, leite e ovos.
"Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final", disse a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho à Agência Brasil.
O trabalho considera quatro formas de proteger a lavoura: biotecnologia, como os organismos geneticamente modificados, melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos. O manejo integrado combina dois ou mais desses métodos.
O que o Ipea e a Embrapa registram
Levantamento do Ipea mostra que o consumo de defensivos químicos passou de 180 mil toneladas por ano em 2003 para 800 mil em 2023, alta de 4,4 vezes. Soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntos por 76% desse consumo.
O pesquisador da Embrapa Robson Barizon lembra que os produtos podem causar efeitos agudos e crônicos na saúde e contaminar solo e água, com impacto sobre polinizadores e organismos aquáticos. Ele também aponta que plantas daninhas resistentes levam produtores a aumentar a dose.
O coordenador de Sustentabilidade da CropLife, Pedro Duarte, respondeu que o setor se preocupa com a segurança dos produtos. "Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por muitos estudos", afirmou.
Segundo o Ipea, o ritmo de novos registros subiu depois da Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023): foram 663 liberações em 2024, contra 555 em 2023. De 2005 a 2019, 3.151 produtos foram registrados, e só 20% deles tinham baixa toxicidade. Dados do Ministério da Saúde divulgados pela ONG Repórter Brasil somam 73.391 casos de intoxicação por agrotóxico de 2015 a 2025, 9.729 só no ano passado.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta safra recorde de grãos em 2026, puxada pela soja, como mostrou o Resenhando, e o Valor Bruto da Produção da agropecuária chegou a R$ 1,403 trilhão em 2026.
O estudo completo da UFV e da CropLife não estava disponível para consulta na data da publicação; os números acima são os divulgados pela Agência Brasil.