Agronegócio

China e UE apertam a carne brasileira e pressionam o preço interno

Cota chinesa de 1,1 milhão de toneladas e exclusão da lista europeia a partir de 3 de setembro sobram como oferta no mercado doméstico

O maior exportador de carne bovina do mundo entrou em agosto com dois de seus principais compradores fechando a porta ao mesmo tempo. A China limitou as compras a uma cota de 1,1 milhão de toneladas em 2026, e a União Europeia retira o Brasil da lista de exportadores aprovados de várias carnes a partir de 3 de setembro. A combinação já pressiona frigoríficos e derruba o preço no mercado interno.

Os dados foram reunidos em reportagem publicada neste sábado, 1º, pela Gazeta do Povo, com base em análises do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), do IBGE e do Cepea/Esalq-USP.

A restrição chinesa vigora desde janeiro de 2026 e tem duração prevista de três anos. Dentro da cota, a tarifa de importação é de 12%. Acima dela, sobe para 55%, patamar que na prática inviabiliza o embarque. Em maio, o Brasil já havia preenchido 80% do limite anual. Com o teto praticamente consumido, frigoríficos suspenderam em julho a produção de cortes destinados especificamente ao mercado chinês.

Para efeito de comparação, o país exportou 1,68 milhão de toneladas à China em 2025, volume mais de 50% acima do teto agora fixado por Pequim.

O argumento europeu

A decisão da União Europeia tem outro fundamento. Bruxelas alega que o governo brasileiro não comprovou adequação às normas europeias sobre uso de antimicrobianos na pecuária, e por isso removerá o país da lista de fornecedores habilitados a partir de 3 de setembro.

A exigência recai sobre um mercado de margem alta, que compra cortes nobres e paga prêmio por rastreabilidade. Perder o selo europeu não afeta apenas o volume: retira do exportador brasileiro justamente a receita que sustenta a média de preço da tonelada embarcada.

Onde a conta aparece

O que não embarca sobra internamente. Com menos compras da China e incerteza na Europa, a oferta doméstica aumenta e os preços cedem. Em junho, a carne bovina recuou 2,34% no atacado e 0,64% no varejo pela medição do IPCA, segundo o IBGE.

Para o consumidor, o efeito imediato é alívio no açougue. Para a cadeia produtiva, o quadro é outro: a maior parte dos frigoríficos passou a operar no vermelho, e empresas vêm reduzindo turnos e atividades para preservar margem, conforme apurou a Gazeta do Povo.

  • Cota chinesa 2026: 1,1 milhão de toneladas, ante 1,68 milhão exportado em 2025
  • Tarifa dentro da cota: 12%
  • Tarifa acima da cota: 55%
  • Decisão da UE: exclusão da lista de exportadores aprovados em 3 de setembro
  • Carne bovina no IPCA de junho: queda de 2,34% no atacado e de 0,64% no varejo

A tendência de baixa deve se prolongar até outubro, quando a renovação anual da cota chinesa volta a movimentar a cadeia, segundo a avaliação dos analistas citados na reportagem.

O Ministério da Agricultura e Pecuária não divulgou até o momento cronograma de resposta às exigências europeias sobre antimicrobianos. A Abiec, que representa os frigoríficos exportadores, avalia que a ausência da China tende a reduzir o preço médio das exportações brasileiras de carne bovina no segundo semestre.

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