PF aponta viagens pagas por Vorcaro a servidores do Banco Central
Relatório da Operação Compliance Zero cita guia em Paris e roteiro para Disney e Universal; defesas negam
Relatório da Polícia Federal aponta que o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, custeou viagens e serviços a dois servidores do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do Banco Central. As informações constam da Operação Compliance Zero e da Petição 15.504, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), e foram divulgadas na sexta-feira, 11, pela Gazeta do Povo.
Os servidores citados são Belline Santana, chefe do Desup, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe adjunto do mesmo departamento. Os dois foram afastados dos cargos em março de 2026.
Segundo o relatório, Vorcaro custeou almoço, jantar e guia em Paris para Belline Santana, com determinação a um de seus prestadores de serviços. Entre os restaurantes citados na apuração estão o Laperouse e o Loulou.
No caso de Paulo Sérgio Souza, os investigadores descrevem o envio, em 30 de janeiro de 2024, de um roteiro detalhado de viagem em família para os parques da Disney e da Universal, em Orlando, nos Estados Unidos, prevista para o mês seguinte. A PF afirma que Vorcaro acionou prestador para providenciar o agendamento e a contratação de guia.
O que a PF descreve no relatório
Para os investigadores, os dois servidores atuaram como consultores informais do empresário. O documento sustenta que eles deram orientações, revisaram minutas destinadas ao Banco Central e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e intercederam em temas de interesse do conglomerado, conduta descrita no relatório como "por óbvio incompatível com o Código de Conduta do BCB".
O relatório também registra a preocupação dos interlocutores com o sigilo das conversas. "Os interlocutores, cientes da gravidade e caráter criminoso de suas condutas, evidenciam no diálogo, desde seu início, o propósito de ocultar o teor das comunicações", diz o texto da PF.
A apuração indica ainda repasses financeiros. De acordo com o relatório, Belline Santana recebeu R$ 2 milhões da Varajo Consultoria Empresarial, e uma planilha de setembro de 2025 registra o nome "Bellini" associado ao valor de R$ 500 mil em despesas fixas mensais. No caso de Paulo Sérgio, os investigadores apontam a transferência de uma propriedade rural avaliada em R$ 4,8 milhões, em 2021.
O período analisado vai de outubro de 2023 ao fim de 2025. O marco final coincide com a prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025.
O Desup é a área do Banco Central responsável por fiscalizar as instituições financeiras, avaliar a solidez das carteiras e acompanhar o cumprimento das normas prudenciais. É o departamento que supervisionava diretamente o Banco Master no período descrito no relatório.
O que dizem as defesas
A defesa de Belline Santana afirmou que "o Sr. Belline Santana sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições". O advogado Leonardo Palazzi sustenta que o depoimento de Leonardo Serrano Giunchetti "esclareceu que tal fato jamais ocorreu, muito menos por indicação ou pagamento do Sr. Daniel Vorcaro", em referência à alegação de vantagem obtida em viagem.
A defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza declarou que ele "jamais protegeu interesses do Sr. Daniel Vorcaro, com quem manteve contatos estritamente no âmbito da relação institucional entre supervisor e supervisionado". Os advogados acrescentam que o servidor "foi quem identificou, junto com sua equipe, problemas graves no Banco Master já em setembro de 2024".
O Banco Central não se manifestou sobre o conteúdo do relatório. A autarquia confirmou apenas o afastamento dos dois servidores em março deste ano.
A Petição 15.504 tramita no STF e reúne as apurações ligadas ao Banco Master. Em 11 de setembro, o ministro Alexandre de Moraes pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, o fim de todo o sigilo no caso. Também tramita pedido de acesso à íntegra do celular de Vorcaro, apresentado pelo ministro Cristiano Zanin.