PF aponta ex-secretário da Saúde como ponte em contrato de R$ 626 milhões
Swedenberger Barbosa segue no Gabinete Pessoal da Presidência após citações em apuração sobre tráfico de influência
O ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Swedenberger do Nascimento Barbosa, conhecido como Berger, mantém posto no Gabinete Pessoal da Presidência da República mesmo depois de ter sido citado em apuração da Polícia Federal sobre tráfico de influência no ministério em que trabalhou. A informação foi publicada nesta segunda-feira, 24, pela Gazeta do Povo.
Segundo a reportagem, mensagens obtidas pela investigação indicam que Berger seria a ponte para viabilizar negócios dentro da pasta. O caso em discussão envolve a proposta de um contrato de R$ 626 milhões para a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol.
A apuração foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. O empresário citado nas tratativas esteve pelo menos cinco vezes no Ministério da Saúde entre 2024 e 2025, período em que Berger ocupava a secretaria-executiva, o segundo posto na hierarquia da pasta.
Berger deixou o ministério em 2025 e passou a integrar o Gabinete Pessoal da Presidência, estrutura que organiza a agenda e o atendimento direto ao chefe do Executivo. Em agosto de 2026, ele voltou a despachar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O que diz a defesa
Procurado pela Gazeta do Povo, Berger confirmou as reuniões com o empresário, mas justificou que os encontros faziam parte das atribuições normais do cargo que ocupava. Ele negou qualquer orientação externa para as reuniões e rejeitou a hipótese de intermediação irregular.
A defesa de Roberta Luchsinger, que recebeu R$ 1,5 milhão no episódio, afirmou que os valores correspondem a pagamentos por consultoria técnica. O Ministério da Saúde declarou que nunca houve discussão formal sobre o contrato de canabidiol dentro da pasta.
A investigação corre sob supervisão do STF, com autorização do ministro André Mendonça.
Como o caso chegou ao Supremo
A apuração integra o conjunto de inquéritos abertos a partir do material colhido pela PF sobre operadores que atuavam junto a órgãos federais. Parte desse material chegou à imprensa nas últimas semanas, o que levou o ministro André Mendonça a determinar que a Polícia Federal investigue o vazamento das apurações, em 20 de agosto.
O canabidiol é derivado da cannabis usado no tratamento de epilepsias graves e de outras condições neurológicas. A venda em farmácias no Brasil é regulada pela Anvisa desde 2019, quando a agência criou uma categoria própria para produtos derivados de cannabis, com exigência de prescrição médica. A compra pública do produto depende de registro na agência ou de autorização específica de importação, e o volume descrito nas tratativas colocaria a União como compradora em escala inédita para esse tipo de medicamento.
Um contrato de R$ 626 milhões colocaria a aquisição entre as maiores compras isoladas de medicamento da pasta. O valor equivale a cerca de R$ 520 por frasco, considerando o volume de 1,2 milhão de unidades descrito nas tratativas.
O tráfico de influência está previsto no artigo 332 do Código Penal e pune quem solicita ou recebe vantagem a pretexto de influir em ato de servidor público. A pena vai de dois a cinco anos de reclusão, com aumento da metade quando o agente alega que a vantagem se destina ao funcionário.
A secretaria-executiva do Ministério da Saúde concentra a gestão administrativa da pasta e responde pela execução orçamentária, o que dá ao ocupante do cargo trânsito direto com as áreas responsáveis por contratos e compras. É a posição que Berger ocupou até 2025.
A permanência de um citado em investigação no núcleo do Palácio do Planalto ocorre a menos de dois meses do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. O governo não anunciou mudança na composição do Gabinete Pessoal.