Ex-chefe de gabinete de Lula cobrou quadro de 100 mil euros a lobista
Mensagens anexadas ao inquérito da Operação Sem Desconto mostram Marcola pedindo a entrega da obra; defesa diz que valores recebidos eram empréstimo já quitado
O ex-chefe de gabinete da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, cobrou de uma lobista investigada pela Polícia Federal a entrega de um quadro avaliado em 100 mil euros. O diálogo está em mensagens anexadas ao inquérito da Operação Sem Desconto e foi revelado na sexta-feira, 21, pelo jornal O Estado de S. Paulo.
A conversa é de 19 de dezembro de 2024. Às 12h59, segundo o material obtido pela PF, Marcola escreveu à empresária Roberta Luchsinger: "E meu quadro?? Kkk". Ela respondeu que a entrega ocorreria na semana seguinte, porque a obra ainda estava sendo emoldurada, e afirmou que a peça estava no Carrousel du Louvre, o centro comercial anexo ao Museu do Louvre, em Paris.
Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), são investigados por suposto tráfico de influência junto a integrantes do governo federal. Marcola deixou o cargo no Palácio do Planalto em 2025.
O que dizem as mensagens
No relatório em que reúne as conversas, a Polícia Federal registra o pedido do quadro como possível indício de pagamento de vantagem indevida ao ex-assessor em troca da intermediação de interesses de empresários representados pela lobista. A corporação apura se o repasse de presentes e o pagamento de despesas serviram para ampliar o acesso de Luchsinger ao círculo do governo e preservar sua influência.
O quadro não é o único item citado no material. As mensagens obtidas pela investigação também trazem fotografias de joias, entre colares e brincos, e o registro de repasses em dinheiro que somam R$ 249 mil. Esses valores já haviam sido divulgados pela revista Veja e reproduzidos pelo Poder360.
Em outro trecho, de 19 de julho de 2024, a lobista envia ao ex-chefe de gabinete uma lista de demandas de clientes que representava. O conteúdo desse diálogo é parte do mesmo conjunto de mensagens que levou a PF a abrir uma linha de apuração sobre o acesso da empresária a agendas e a autoridades do Executivo federal.
Os principais pontos do material divulgado até agora:
- Diálogo de 19 de dezembro de 2024 em que Marcola cobra a entrega de um quadro, avaliado pela própria lobista em 100 mil euros.
- Registro de R$ 249 mil em repasses financeiros de Luchsinger ao ex-chefe de gabinete.
- Fotografias de joias que, segundo a apuração, foram pagas pela empresária.
- Lista de demandas de clientes enviada por Luchsinger em julho de 2024.
- As mensagens integram o inquérito da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos aplicados a aposentados do INSS.
O que respondem as defesas
Em nota enviada ao Poder360, a assessoria de Marco Aurélio Santana Ribeiro negou ter atuado em favor de empresas e afirmou que os valores recebidos correspondem a um empréstimo pessoal.
"Marco Aurélio Santana Ribeiro jamais encaminhou qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da Saúde ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os valores mencionados na reportagem foram todos integralmente quitados, uma vez que são referentes a um empréstimo pessoal."
O advogado Roberto Podval, que defende Roberta Luchsinger, informou que vai se manifestar nos autos do inquérito. A empresária não comentou o conteúdo das mensagens.
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva, a cargo do advogado Marco Aurélio Carvalho, nega irregularidades e tem criticado publicamente a divulgação de trechos das apurações antes da conclusão do inquérito. No dia 20 de agosto, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça determinou que a Polícia Federal investigue o vazamento das apurações que envolvem o filho do presidente.
Os inquéritos sobre Lulinha tramitam no Supremo sob relatoria de Mendonça. Em agosto, o ministro já havia autorizado uma segunda apuração, voltada a contratos da Dataprev, e a PF também apura repasses feitos pela lobista ao ex-chefe de gabinete, revelados no início de agosto. Não há prazo definido para a conclusão dos trabalhos.