Lula diz que Mendonça usou o cargo de relator para fazer política
Em entrevista à Rádio Itatiaia, o presidente pediu que o STF julgue os ministros no mesmo dia; Mendonça afirma que sabia das represálias
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira, 17, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça usou a relatoria do caso Banco Master para fazer política. A declaração foi dada em entrevista à Rádio Itatiaia e reproduzida por Poder360 e Gazeta do Povo.
Segundo o registro do Poder360, Lula disse que o telefone apreendido com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, expõe o que chamou de divulgação seletiva por parte do relator.
E agora que o telefone, que tem a nuvem, que estava com André Mendonça, que estava utilizando o cargo dele de relator para fazer política, está provado que ele estava fazendo política, fazendo denúncia seletiva, divulgando apenas aquilo que interessava para ele.
Na mesma entrevista, o presidente se referiu ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, e disse que ele está "atolado até o pescoço" no caso do banco. Sobre Vorcaro, afirmou que o empresário "corrompeu a República" e que há "deputado com medo, senador com medo, ministro com medo, juiz com medo".
O pedido para julgar os ministros no mesmo dia
Lula também defendeu que o Supremo julgue na mesma sessão os pedidos que envolvem ministros da Corte. Conforme a transcrição da Gazeta do Povo, ele disse que, "se quiser fazer justiça na votação, tem que colocar todo mundo no mesmo dia" e que "o que não pode é julgar uma pessoa antes das eleições e o restante depois".
A fala esbarra em decisão já tomada pela presidência do tribunal. Como o Resenhando registrou, Fachin separou os julgamentos de Moraes e de Mendonça e marcou a sessão para o dia 23. A distribuição dos casos e a data das sessões são atribuição do presidente da Corte, não do Executivo.
O presidente citou ainda os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino ao comentar o rumo das apurações, afirmando que o material agora "está na mão" deles.
O que diz Mendonça
Horas antes da entrevista de Lula, Mendonça afirmou a pessoas próximas, em mensagem de WhatsApp obtida pelo Poder360, que sabia das consequências de levar ao STF as informações repassadas pela Polícia Federal.
Quando decidi levar adiante as informações que recebi da Polícia Federal, sabia que viriam represálias. Fui advertido, de forma implícita e explícita, de que viriam ataques à minha pessoa e a pessoas próximas a mim. No entanto, nada tenho a temer. Assim, apesar dos ataques e tentativas de intimidação, seguirei cumprindo meu dever com serenidade e responsabilidade.
Na mesma mensagem, o ministro recorreu ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer para dizer que o ataque pessoal é um dos recursos de quem tenta vencer um debate sem ter razão. O relatório da PF ao qual ele se refere aponta conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro.
A Gazeta do Povo informou que procurou Mendonça e não obteve retorno sobre as declarações do presidente. O STF não divulgou manifestação institucional sobre a fala de Lula.
O caso Banco Master chegou ao Supremo com dois desdobramentos que passaram a correr em paralelo: a apuração sobre a atuação de Moraes e o questionamento sobre a condução de Mendonça como relator. A sessão marcada para 23 de setembro decide se as investigações seguem, e em que termos.
O calendário pesa. O primeiro turno das eleições gerais ocorre em 4 de outubro, e o próprio Lula vinculou a data do julgamento ao pleito ao pedir que todos sejam analisados na mesma sessão. Até agora, a decisão de Fachin mantém os processos separados.