Condenado diz à PF que recebia dinheiro do governador do Maranhão
Depoimento sigiloso de junho de 2025 cita vaga no Palácio dos Leões e pagamentos mensais; Carlos Brandão nega qualquer relação
Um homem condenado por homicídio no Maranhão afirmou à Polícia Federal que recebia pagamentos mensais em espécie ligados ao governador Carlos Brandão (PSB) e que tinha vaga reservada no Palácio dos Leões, sede do governo estadual. As declarações constam de depoimento sigiloso prestado em 24 de junho de 2025 e foram publicadas nesta quarta-feira, 19, pela Gazeta do Povo. O governador nega.
O depoente é Gilbson Júnior, condenado pelo assassinato do empresário João Bosco Sobrinho. No relato à PF, ele disse que circulava pelo palácio sem restrição: "Eu tinha uma vaga no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6".
Sobre os valores, afirmou que o pagamento variou ao longo do tempo. "No começo era quarenta mil [reais], pra mim nem sair de casa. Depois que o Brandão se elegeu aí caiu pra trinta, por último só tava quinze mil por mês", declarou no depoimento. Ele também disse ter tido reuniões com o governador e com Daniel Brandão, sobrinho do chefe do Executivo estadual. Segundo a Gazeta do Povo, o conteúdo do depoimento também foi reportado pela TV Globo e pelo portal G1.
O que diz o governador
Carlos Brandão negou qualquer vínculo. "Nunca tive relação com esse condenado confesso. Nunca o recebi no Palácio, nem em qualquer lugar", afirmou o governador, que classificou os relatos como mentirosos e sem provas.
Daniel Brandão declarou "absoluta inocência" em relação às afirmações do depoente.
O Palácio dos Leões, citado no depoimento, é a sede do governo do Maranhão e fica no Centro Histórico de São Luís, em área tombada. O acesso ao estacionamento interno é controlado e reservado a autoridades e servidores autorizados, o que dá peso à afirmação de que o depoente teria vaga fixa no local.
As declarações foram prestadas há mais de um ano e o processo corre sob sigilo, o que explica a divulgação apenas agora. A Gazeta do Povo não informou como teve acesso ao conteúdo.
Depoimento prestado por condenado não constitui prova de crime. Para ter valor processual, o relato precisa ser corroborado por outros elementos, como registros de entrada, movimentação financeira ou depoimentos independentes. Até a publicação, não havia notícia de denúncia formal oferecida contra o governador com base nesse depoimento.
O cenário no Maranhão
O caso se soma a uma sequência de decisões judiciais que envolvem o governo maranhense. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, afastou por 180 dias o presidente do Tribunal de Contas do Estado, Daniel Brandão, em decisão tomada neste mês. O governador contestou a competência de Dino para julgá-lo e levou o questionamento ao Supremo, onde o ministro Dias Toffoli foi sorteado relator na quarta-feira, 19. Leia: Toffoli é sorteado relator de ação de Brandão contra decisões de Dino.
O afastamento de Daniel Brandão foi determinado em petição que corre no Supremo. A defesa dele nega irregularidade. O governador argumenta que o foro para eventual apuração contra ele não é o STJ nem decisões monocráticas de Dino, tese que agora está com Toffoli.
O estado também é palco de outro processo que chegou às cortes superiores neste ano, o da quebra de sigilo que atingiu fonte de um jornalista maranhense, caso que gerou críticas de entidades de imprensa e levou o próprio Dino a levantar o sigilo da operação.
Brandão assumiu o governo do Maranhão em 2022, quando era vice de Flávio Dino, que deixou o cargo para disputar o Senado. Foi eleito no mesmo ano para o mandato que se encerra em 2026.
Nem a Polícia Federal nem o Ministério Público Federal no Maranhão comentaram publicamente o teor do depoimento, que corre sob sigilo. O governo do estado não informou se acionará judicialmente o autor das declarações.