Política

Abin vê risco crítico de interferência dos EUA na eleição de outubro

Relatório da Abin enviado à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça classifica como crítico o risco de interferência dos EUA no pleito de 4 de outubro.

Um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como crítico o risco de influência e de interferência do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro deste ano. O documento, intitulado "Ameaças ao processo eleitoral de 2026", foi enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça.

A existência e o conteúdo do relatório foram revelados pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, e repercutidos no sábado, 19, pelo Estado de Minas e pela Gazeta do Povo. A TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), confirmou as informações.

Segundo os trechos citados pelas reportagens, a agência identificou uma "tendência de escalada de pressão sobre o Brasil", marcada por "intensificação seletiva e reconfiguração" das ações norte-americanas. O relatório trabalha com a hipótese de que a reafirmação da hegemonia dos Estados Unidos na América Latina seja prioridade de um eventual segundo governo de Donald Trump, com o objetivo de reduzir a influência de potências rivais na região. O Financial Times já registrou a tentativa de Lula de usar Trump como contrapeso a Rubio.

O que o documento atribui a Marco Rubio

O texto destaca o papel do secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Marco Rubio. Na avaliação da Abin, as declarações de Rubio "adicionam um tom de disputa política e ideológica capaz de repercutir no debate interno".

O relatório também registra tentativa direta de condicionar regras da eleição brasileira. De acordo com a Gazeta do Povo, os Estados Unidos buscaram incluir, em negociações bilaterais, cláusulas exigindo que o Brasil assegurasse "eleições presidenciais livres e justas em 2026" e não limitasse a participação de dissidentes políticos. A proposta chegou a ser apresentada na forma de declaração conjunta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rejeitou o texto em público. Segundo a mesma reportagem, ele tratou a proposta como documento recusado e disse que ela virou "arquivo morto".

O alerta não afirma interferência já detectada

A distinção aparece no próprio documento. O relatório aponta risco e tendência, não ocorrência comprovada de ingerência no processo eleitoral em curso. Nenhuma das reportagens que revelaram o conteúdo cita registro de ação concreta sobre urnas, apuração ou candidaturas.

As matérias publicadas até a noite deste domingo, 20, não trazem manifestação formal da Abin, do TSE, do Itamaraty, do Departamento de Estado dos Estados Unidos nem da embaixada americana em Brasília sobre o teor do relatório.

O documento chega num momento em que a relação bilateral acumula atritos concretos: o tarifaço aplicado a produtos brasileiros, as sanções a autoridades brasileiras e a disputa pública entre Lula e Rubio, que o presidente já chamou de bolsonarista e anti-latino-americano. A eleição é em 4 de outubro.

Relatórios de inteligência com classificação reservada não têm efeito jurídico sobre o pleito. Eles subsidiam decisão de governo e, no caso do TSE, alimentam o trabalho das estruturas de segurança eleitoral e de enfrentamento à desinformação montadas para o período de votação.

4 visualizações