A lua de mel de Celina e Prudente começou num palanque de Planaltina
O MDB assinou a paz com Celina Leão em cartório partidário no dia 1º de agosto. Só na sexta (21), num comitê de Planaltina, a paz ganhou fotografia.
Existe um momento em que acordo político deixa de ser papel e vira fato. Não é quando a ata é assinada. É quando os dois lados aparecem juntos, no mesmo palco, em cima de um território que interessa aos dois, e pedem voto um para o outro na frente de gente que vota.
Esse momento aconteceu na noite de sexta-feira (21), na Avenida Independência, em Planaltina.
O que estava em jogo até junho
Vale relembrar de onde vem a cena, porque a memória política no Distrito Federal costuma durar três semanas.
No começo de junho, a direção nacional do MDB paralisou o diretório do Distrito Federal. Atendia a um pedido formal de Rafael Prudente e de três distritais da legenda, incomodados com o apoio que o comando regional já anunciava à governadora. O documento falava em "distanciamento político" entre Celina Leão e Ibaneis Rocha e reproduzia a frase que virou senha do impasse: "sucessão nunca será submissão".
Em 22 de julho, Baleia, Ibaneis e Prudente sentaram na casa do ex-governador para avaliar candidatura própria ao Buriti. O presidente do diretório não foi convidado para a conversa sobre o próprio diretório. Nas semanas seguintes, saiu em portal local que Prudente seria o candidato do MDB ao governo.
Nada disso é fofoca de bastidor. Está em documento, em decisão assinada e em matéria publicada.
A convenção resolveu pela metade
Em 1º de agosto, a convenção do MDB-DF apoiou a reeleição de Celina e confirmou Prudente candidato à Câmara dos Deputados. O partido saiu de lá com o problema formalmente resolvido e com um detalhe incômodo: Ibaneis Rocha, o maior nome da legenda no DF, não estava no salão.
Acordo do qual falta o principal interessado não é acordo, é trégua. E trégua com fotografia incompleta gera exatamente o que gerou nas três semanas seguintes: a suspeita permanente de que o apoio era protocolar, morno, de fachada, do tipo que não se converte em voto nem em palanque.
É por isso que a noite de sexta-feira importa mais do que uma inauguração de comitê normalmente importaria.
O gesto que faltava
Prudente subiu no palco de um comitê do PP, o partido da adversária de ontem, de boné da equipe de som que animava a festa, e não deixou margem para leitura dupla:
"Eu quero pedir o voto para a nossa governadora Celina Leão, o número dela é 11. E todo esse grupo que nós formamos aqui é o seu grupo também, e vai levar o seu nome com todo o carinho para toda a cidade de Planaltina."
Não mandou representante. Não postou nota. Foi, subiu, falou o número e ofereceu a própria base. E foi correspondido: a governadora puxou o nome dele para a mesma plateia.
Em política, isso tem um nome: custo. Quem pede voto para o outro em praça pública gasta capital próprio e não tem como desdizer depois. É a diferença entre apoiar e bancar.
E há a frase que explica o resto:
"Muita gente não acreditou, muita gente não queria que isso acontecesse, algo que a gente vem conversando há mais de um ano, para que o grupo Rafael Prudente e o grupo Pepa fossem um só grupo."
Leia devagar. O deputado federal está dizendo que a fusão das duas bases da Região Norte vinha sendo negociada desde antes de o partido dele entrar em crise. Ou seja: enquanto a imprensa contava requerimento, comissão e reunião na casa do ex-governador, a conversa que produziu o desfecho corria em outro andar, no varejo de Planaltina, longe do noticiário.
Por que em Planaltina, e por que ali
O endereço também não é detalhe. O anfitrião era o deputado distrital Pepa, do PP, líder do governo na Câmara Legislativa e parceiro de dobradinha de Prudente na Região Norte. Ele é, ao mesmo tempo, homem da governadora dentro do Legislativo e sócio eleitoral do MDB no território.
Quem ocupa as duas cadeiras dessa mesa costuma ser quem consegue colocar as duas partes na mesma foto. Foi no palanque dele, e não numa sede partidária em Brasília, que a reconciliação apareceu inteira pela primeira vez. Política de bastidor tem essa característica: raramente vira manchete, quase sempre vira cena.
O tom do discurso, aliás, não foi de conciliação morna. Prudente fechou marcando adversário: "O que a gente está prometendo é trabalho e serviço. Aqui ninguém está prometendo picanha para entregar pobreza para vocês nos próximos quatro anos." Quem fala assim não está cumprindo tabela.
A conta para outubro
O resultado prático é simples de medir. A base da governadora chega às urnas com o MDB dentro, com bancada federal empenhada e com a Região Norte organizada em torno de uma dobradinha que funciona. A oposição, no mesmo período, se dividiu em candidaturas que disputam o mesmo eleitorado.
Galeria: a noite em Planaltina
As imagens da noite que colocou Celina Leão e Rafael Prudente no mesmo palanque.






Arraste para o lado para ver as 6 fotos. Fotos e vídeo do evento: Felipe Machado, @simboraproduzir.
Faltam pouco mais de seis semanas para 4 de outubro. Quem viu a cena de Planaltina e continuar apostando em racha no campo governista está lendo a eleição pelo noticiário de junho.