Opinião

Arrecadar mais nunca foi o problema

A Receita bateu recorde no primeiro semestre e o discurso oficial segue tratando o rombo como uma questão de receita insuficiente

Artigo assinado pela Redação Resenhando. Texto de opinião.

A Receita Federal arrecadou R$ 1,587 trilhão em tributos, contribuições e demais receitas administradas no primeiro semestre de 2026. É o maior valor da série histórica para o período, com crescimento real de 6,63% sobre os seis primeiros meses de 2025, já descontada a inflação. Só em junho foram R$ 264,4 bilhões, alta real de 7,72% e recorde para o mês. Os dados foram divulgados pelo órgão em 30 de julho.

Guardado o número, vale reler o que se diz sobre as contas públicas. O diagnóstico oficial, repetido a cada rodada de discussão orçamentária, é o de que falta receita. Os dados da própria Receita dizem outra coisa: a arrecadação cresce acima da inflação, cresce acima do PIB e cresce em ritmo que nenhuma família ou empresa brasileira consegue acompanhar na renda.

O que sustenta o recorde

A Receita atribui o resultado ao comportamento favorável dos indicadores que afetam a coleta: atividade econômica, massa salarial e importações. IRPJ e CSLL somaram R$ 33,2 bilhões em junho, com alta real de 20,4%. As contribuições previdenciárias renderam R$ 64,48 bilhões, com crescimento real de 4,7%. Os tributos sobre importação subiram 22,87%. O IRRF sobre rendimentos de capital cresceu 12,4% em termos reais.

Há uma ressalva honesta no próprio balanço: R$ 15,8 bilhões do semestre vieram de receitas atípicas, sendo R$ 7,7 bilhões em junho. Sem esses valores extraordinários, o crescimento real do semestre cairia de 6,63% para 5,74%. Continua sendo crescimento real robusto. Nenhuma leitura do dado permite concluir que o Estado brasileiro está passando por aperto de receita.

O lado que ninguém corta

Se a receita cresce em ritmo recorde e o resultado fiscal segue apertado, a variável que explica a conta é a despesa. Esse é o lado do orçamento que não entra nas propostas apresentadas ao Congresso com a mesma velocidade com que entram as de aumento de alíquota, ampliação de base de cálculo e criação de tributo sobre novas atividades.

A pressão dos juros ajuda a fechar o quadro. Este portal registrou o Copom levando a Selic a 14% em agosto, com a dívida pública federal em R$ 9,27 trilhões. Cada ponto de juro cobrado sobre esse estoque consome uma fatia da arrecadação recorde antes que ela chegue a qualquer serviço prestado ao contribuinte.

A pergunta que interessa ao contribuinte

Quem paga a conta merece a pergunta feita na ordem correta. Não é quanto ainda dá para arrecadar. É o que foi entregue com o recorde que já foi arrecadado.

O trabalhador com carteira assinada viu a massa salarial crescer e, com ela, a contribuição previdenciária. O importador pagou 22,87% a mais. O poupador com aplicação financeira viu o imposto na fonte subir. Nenhum deles recebeu, no mesmo semestre, serviço público em proporção equivalente ao que entregou.

Existe um limite político para essa conta, e ele não é abstrato. Quando a arrecadação cresce mais rápido que a renda por vários anos seguidos, a diferença sai do investimento privado, do consumo das famílias e da capacidade de a economia crescer no ano seguinte. É um imposto cobrado hoje sobre a produção de amanhã.

O recorde de R$ 1,587 trilhão devia encerrar uma discussão. Arrecadar mais nunca foi o problema. O problema é o que se faz com o que já foi arrecadado, e essa é a conversa que o Orçamento continua adiando.

Leia também: Copom leva a Selic a 14% com a dívida pública federal em R$ 9,27 trilhões.

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