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Xi diz que a América Latina deve escolher parceiros sem interferência

Declaração foi feita em Pequim, na visita de Estado do presidente do Equador, Daniel Noboa, três dias depois de a Reuters informar que os EUA pediriam alinhamento na disputa de inteligência artificial

O presidente da China, Xi Jinping, afirmou na terça-feira, 18, em Pequim, que o país apoia as nações da América Latina na defesa da "independência e autonomia" e que não deve haver interferência externa na escolha dos parceiros comerciais e diplomáticos da região. A declaração foi feita durante a visita de Estado do presidente do Equador, Daniel Noboa, e divulgada pelo Poder360 e por agências internacionais na mesma data.

"A China sustenta que a condição da América Latina e do Caribe como zona de paz não deve ser prejudicada, nem o caminho de desenvolvimento e revitalização dos países da região deve ser interrompido. Não deve haver interferência no direito de escolher de forma independente seus parceiros de cooperação", disse Xi.

Segundo o registro do encontro, os dois presidentes trataram de cooperação em energia, mineração, construção de infraestrutura, finanças e inteligência artificial. Não foi divulgada a assinatura de acordos específicos ao fim da reunião.

Do lado equatoriano, a leitura foi de aproximação declarada. Veículos do Equador registraram que Noboa se apresentou como amigo da China durante a passagem por Pequim, e a imprensa da região tratou a fala de Xi como um chamado aos países latino-americanos para que defendam a própria independência.

O contexto da fala

A declaração veio três dias depois de a agência Reuters informar que os Estados Unidos pretendiam pressionar governos a "escolher lados" na disputa de inteligência artificial com a China. A frase de Xi sobre "escolher parceiros sem interferência" responde diretamente a esse enquadramento, sem citar Washington pelo nome.

Não é a primeira vez neste ano que Pequim usa o vocabulário da soberania ao tratar da região. Em julho, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, manifestou apoio à soberania brasileira e convidou o Brasil a integrar a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, a Waico, iniciativa chinesa para a governança do setor.

O padrão se repete: a China oferece a linguagem da não interferência no momento em que os Estados Unidos endurecem exigências de alinhamento tecnológico e comercial. Para governos da região que negociam com os dois lados, a disputa deixa de ser abstrata e passa a ter preço em contratos de energia, mineração e infraestrutura, exatamente os setores da pauta com o Equador.

O que muda para o Brasil

O Brasil é o principal parceiro comercial da China na América do Sul e negocia simultaneamente com Washington um contencioso tarifário. O convite para integrar a Waico, feito em julho, não teve adesão anunciada pelo governo brasileiro até agora.

A escolha não é apenas diplomática. Envolve padrão técnico, fornecedor de equipamento, regra de proteção de dados e a definição de quem controla a infraestrutura de processamento instalada no país. Cada uma dessas decisões amarra o Brasil a um ecossistema por prazo longo, e o custo de trocar de lado depois é alto.

O Itamaraty não divulgou avaliação sobre a fala de Xi em Pequim. A embaixada da China no Brasil também não se manifestou sobre a declaração até a publicação desta reportagem.

Noboa assumiu o governo equatoriano com discurso de aproximação com os Estados Unidos, o que dá peso adicional ao encontro em Pequim. A visita de Estado indica que a agenda de cooperação com a China continua aberta mesmo em governos que se apresentam como alinhados a Washington.

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