Ex-assessor de Milei que atacou as urnas brasileiras é preso na Bolívia
Fernando Cerimedo foi detido no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra; polícia apura participação em ataque a tiros contra a ex-companheira
O empresário argentino Fernando Cerimedo, ex-assessor do partido La Libertad Avanza, do presidente Javier Milei, foi preso nesta terça-feira, 18, no aeroporto internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A polícia boliviana apura se ele teve participação no ataque a tiros contra a ex-companheira.
A vítima é a advogada e analista política boliviana Nadia Beller, atingida por disparos na noite de segunda-feira, 17, em Santa Cruz de la Sierra. Ela sobreviveu. Beller atribui o ataque a Cerimedo e afirma que ele contratou os autores dos disparos.
O ataque ocorreu na porta de um hotel. Os autores dos disparos se passaram por entregadores e efetuaram três tiros, segundo o relato divulgado pela imprensa boliviana e reproduzido pelo Brasil de Fato. A polícia local trata o caso como possível conflito de natureza sentimental.
Segundo as autoridades bolivianas, Cerimedo foi detido quando tentava deixar o país. A informação foi divulgada pela Gazeta do Povo e confirmada por outros veículos brasileiros e argentinos. Ele nega envolvimento no atentado.
Procurada, a defesa do empresário não se manifestou sobre a prisão até a publicação. Em julho, ao ser questionado sobre relatos de violência doméstica, Cerimedo afirmou que "tal fato jamais ocorreu" e disse que não havia denúncias nem mandados contra ele.
O papel dele no ataque às urnas brasileiras
Cerimedo é conhecido no Brasil pela atuação no questionamento do resultado da eleição presidencial de 2022. Em transmissão feita dias depois do segundo turno, ele apresentou um levantamento segundo o qual as urnas eletrônicas de modelos mais antigos tenderiam a registrar proporcionalmente mais votos para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que para Jair Bolsonaro (PL).
O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou a alegação na ocasião. A auditoria contratada pelo PL, que sustentava a tese, foi rejeitada pela Corte, que aplicou multa ao partido por litigância de má-fé.
A transmissão foi feita em novembro de 2022 e alcançou centenas de milhares de visualizações. A Polícia Federal citou o nome do empresário em documentos de 2024 sobre a tentativa de golpe de Estado, no grupo descrito nos autos como núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral. Ele não foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República no processo nem convocado pela CPMI do 8 de Janeiro.
A trajetória na direita latino-americana
Cerimedo é cofundador do portal La Derecha Diario e dirige empresas de publicidade, tecnologia e estratégia política em Buenos Aires, além de plataformas de cursos de marketing político. Na campanha presidencial argentina de 2023, respondeu por parte da estratégia digital e pela organização de fiscais eleitorais de La Libertad Avanza, que levou Milei à Presidência no segundo turno.
A ponte com o Brasil passou pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O empresário recebeu o parlamentar na Argentina e organizou um encontro entre ele e Milei, antes de o argentino chegar ao poder. Também circulou por eventos conservadores no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos.
O rompimento com o entorno do presidente argentino ocorreu depois da eleição. Cerimedo passou a criticar publicamente parte da equipe do governo e deixou de integrar a estrutura de comunicação da legenda.
A prisão ocorre em meio a um período de atrito entre Brasília e Buenos Aires. O governo argentino manteve nas últimas semanas a acusação de que existiria uma campanha anti-Argentina partindo do Brasil, tema que o Resenhando tratou em reportagem sobre a promessa de revelar as fontes.
Não há informação sobre pedido de extradição nem sobre prazo para a decisão judicial na Bolívia. O Ministério Público boliviano não divulgou até a publicação o enquadramento definitivo da acusação, e o caso segue na fase de investigação preliminar conduzida pela polícia de Santa Cruz. O governo argentino não comentou a prisão, e a Presidência da Argentina não respondeu se mantém qualquer vínculo com o empresário.