Comércio com Sudeste Asiático deve superar EUA e UE, diz chanceler
Mauro Vieira afirma que corrente com a Asean saltou de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025 e já é o quinto maior parceiro do Brasil
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta terça-feira, 18, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, que o comércio do Brasil com o Sudeste Asiático deve superar o intercâmbio com os Estados Unidos e a União Europeia. A declaração foi dada em evento sobre a relação do país com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
"Nesse ritmo, o intercâmbio comercial deverá ultrapassar aquele com parceiros tradicionais do Brasil, como os EUA ou a União Europeia, no futuro próximo. O Brasil já exporta mais para a Singapura do que para a Alemanha. Exporta mais para a Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia do que para a França", disse o ministro, segundo a Agência Brasil.
O bloco reúne países do Sudeste Asiático, entre eles Indonésia, Tailândia, Vietnã, Malásia, Singapura, Filipinas, Mianmar, Camboja, Laos e Brunei. O comércio do Brasil com a Asean saiu de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025, segundo os números apresentados pelo Itamaraty no evento.
Pelos dados do próprio ministério, a corrente de comércio com o bloco somou US$ 38,4 bilhões no ano passado, o que colocou a Asean como quinto maior parceiro comercial do Brasil, atrás de China, União Europeia, Estados Unidos e Mercosul. O saldo foi positivo em US$ 10,3 bilhões, o equivalente a 15% do superávit comercial brasileiro do período. Desde 2020, o intercâmbio cresce em média cerca de 15% ao ano, ritmo superior ao registrado com os parceiros tradicionais.
O que sustenta o crescimento
A pauta brasileira para a região é concentrada em commodities: soja, milho, carnes, celulose, algodão e minério. É a mesma cesta que o país vende à China, o que ajuda a explicar por que o crescimento aparece rápido em valor e devagar em diversificação. Produto industrializado brasileiro tem participação pequena nesse fluxo.
A comparação que o ministro fez também merece leitura cuidadosa. Exportar mais para Singapura do que para a Alemanha diz menos sobre o peso do parceiro do que parece: Singapura é entreposto, e parte do que chega ao porto de lá segue para outro destino final. Vender mais para Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia somados do que para a França, por sua vez, compara quatro países a um.
O que o número mostra sem controvérsia é a velocidade. Multiplicar por dez a corrente de comércio em 22 anos é ritmo que nenhum parceiro tradicional do Brasil acompanhou no período.
A fala do chanceler chega em um momento em que o exportador brasileiro enfrenta restrições no mercado americano. O contencioso aberto pela Seção 301 e as tarifas aplicadas pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros seguem sem solução negociada, e os norte-americanos aceitaram em agosto o pedido de consultas do Brasil na Organização Mundial do Comércio.
O risco de trocar de dependência
Trocar mercado tradicional por mercado asiático não é operação neutra para quem produz. Estados Unidos e União Europeia compram produto de maior valor agregado e mantêm regras estáveis de acesso; o Sudeste Asiático compra volume, negocia preço e concentra a decisão em poucos importadores estatais ou quase estatais em parte dos países.
Há ainda o fator geopolítico. Vietnã, Mianmar, Camboja e Laos têm regimes autoritários ou de partido único, o que significa que barreira comercial pode aparecer por decisão política, sem processo administrativo nem prazo de defesa, como ocorre na OMC.
Não há acordo de livre-comércio entre o Brasil e o bloco. O que existe é aproximação diplomática e cooperação setorial, arranjo que amplia o diálogo, mas não reduz tarifa nem garante previsibilidade de acesso ao exportador.
Sem acordo formal, o crescimento do intercâmbio segue dependente de demanda por alimento e de câmbio favorável, duas variáveis que o produtor não controla. Procurado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços não detalhou até a publicação desta reportagem se há calendário de negociação com a Asean.