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Taiwan pede que próximo presidente do Brasil se alinhe às democracias

Representante da ilha em Brasília, Benito Liao, diz acompanhar a eleição sem interferir e aponta semicondutores e inteligência artificial como áreas de parceria

O representante de Taiwan no Brasil, Benito Liao, afirmou que a ilha acompanha a eleição presidencial brasileira com "profundo respeito às instituições" e sem interferir em assuntos internos, mas apelou para que o próximo presidente se alinhe às democracias e se oponha à pressão crescente da China sobre o território. A declaração foi dada em entrevista à Gazeta do Povo.

Liao chefia o Escritório Econômico e Cultural de Taipei em Brasília desde 2023. A estrutura funciona como representação informal da ilha, já que o Brasil mantém desde 1974 a política de reconhecimento diplomático de "uma só China".

O que Taipei coloca na mesa

Segundo o representante, Taiwan manterá o compromisso de ampliar a cooperação econômica, tecnológica e cultural com o governo escolhido pelos brasileiros, seja ele qual for. Liao apontou potencial de parceria em áreas estratégicas como inteligência artificial, semicondutores e tecnologia agrícola.

Os semicondutores são o ativo central dessa conversa. Taiwan concentra a maior parte da produção mundial de chips avançados, insumo sem o qual não funcionam desde smartphones até equipamentos industriais e sistemas de defesa. Qualquer interrupção no fornecimento produzido na ilha atinge cadeias produtivas no mundo inteiro.

A tecnologia agrícola citada por Liao é a outra frente. Taiwan é importador de alimentos e o Brasil é fornecedor global de proteína e grãos, o que dá base concreta a uma agenda bilateral que não depende de reconhecimento diplomático formal.

Como funciona a relação sem reconhecimento diplomático

O Brasil não mantém relações diplomáticas formais com Taipei. O Escritório Econômico e Cultural de Taipei cumpre, na prática, funções consulares e de promoção comercial, sem status de embaixada. O arranjo é o mesmo adotado pela maioria dos países que reconhecem Pequim.

Esse desenho permite comércio, intercâmbio acadêmico e cooperação técnica, mas impede tratados de Estado e visitas oficiais de autoridades. É por isso que o apelo de Liao se dirige ao alinhamento político, e não a uma mudança de reconhecimento, que nenhum dos principais candidatos colocou em discussão.

O que Pequim tem dito a Brasília

O apelo taiwanês ocorre num momento em que Pequim também intensifica o diálogo com Brasília. Em julho, o presidente chinês, Xi Jinping, declarou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que apoia o Brasil na oposição a "interferências externas".

A China é o principal parceiro comercial brasileiro e o maior destino das exportações do agronegócio nacional. Essa dependência comercial é o elemento que sempre limitou o espaço de manobra de qualquer governo brasileiro na questão de Taiwan, independentemente de orientação ideológica.

A fala de Xi ocorreu em um momento de atrito comercial do Brasil com os Estados Unidos, que impuseram tarifas a produtos brasileiros e levaram o governo a acionar, nesta semana, a Lei da Reciprocidade Econômica. O tema entra na campanha por duas portas ao mesmo tempo: a comercial e a geopolítica.

O que o próximo governo terá de decidir

A política externa não costuma decidir voto no Brasil, mas define compromissos que o próximo governo herda. O posicionamento diante da disputa entre Washington e Pequim, o tratamento dado a Taiwan e a resposta às tarifas americanas formam um bloco de decisões que o presidente eleito em outubro terá de arbitrar já nos primeiros meses de mandato.

Nenhuma das principais candidaturas apresentou, até agora, proposta de alteração na política de reconhecimento adotada desde 1974. O que está em disputa é o grau de proximidade com cada um dos dois blocos, e é sobre esse ponto que o representante taiwanês fez o apelo.

  • Quem falou: Benito Liao, representante de Taiwan no Brasil desde 2023
  • Onde: entrevista à Gazeta do Povo
  • Pedido: alinhamento do próximo presidente às democracias contra a pressão chinesa
  • Áreas de parceria citadas: inteligência artificial, semicondutores e tecnologia agrícola
  • Status diplomático: Brasil segue a política de "uma só China" desde 1974

Até a publicação deste texto, não havia manifestação pública da Embaixada da China no Brasil sobre a entrevista do representante taiwanês.

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