Narcotráfico muda rotas para os EUA após ofensiva militar no Caribe
Cartéis passaram a usar portos, navegação costeira e voos de pistas clandestinas na fronteira entre Colômbia e Venezuela
Os cartéis de drogas reorganizaram as rotas de envio de cocaína aos Estados Unidos depois da ofensiva militar americana no Caribe e no Pacífico, iniciada em agosto de 2025. As organizações abandonaram os corredores mais expostos e passaram a operar por vias menos monitoradas, segundo levantamentos de pesquisadores e relatos de agências de fiscalização.
A campanha, batizada de Operação Lança do Sul, soma mais de 60 ataques a embarcações suspeitas e pelo menos 221 mortes entre agosto de 2025 e julho de 2026. As ações são conduzidas pelo Comando Sul dos Estados Unidos e atingem alvos no mar do Caribe e no Oceano Pacífico.
Uma das mudanças observadas é o abandono parcial das lanchas rápidas, alvo preferencial dos ataques. No lugar delas, as organizações passaram a esconder carregamentos maiores em navios de carga que saem de portos comerciais, o que dilui o risco de perda total em uma única interceptação.
Outra alteração está na navegação. Embarcações que antes cruzavam águas internacionais passaram a seguir mais próximas da costa, área em que uma ação militar direta encontra restrição jurídica maior por envolver a soberania de terceiros países.
Cresceu também o uso de aeronaves que decolam de pistas clandestinas na região de fronteira entre Colômbia e Venezuela. O trajeto aéreo encurta o tempo de exposição e escapa do padrão de vigilância montado sobre o tráfego marítimo.
O efeito sobre o preço nas ruas
Pesquisadores do Washington Office on Latin America (Wola) apontam que o preço da cocaína nas ruas americanas permanece entre US$ 60 e US$ 100 por grama em várias cidades do país, patamar praticamente igual ao registrado antes do início dos bombardeios a embarcações. Os pesquisadores Adam Isacson e John Walsh citaram levantamento publicado pelo The New York Times.
A estabilidade do preço é usada como indicador na avaliação de políticas antidrogas. Quando a oferta é reduzida de forma significativa, a tendência é de alta no valor final ao consumidor. A ausência desse movimento sugere que o volume que chega ao mercado americano não sofreu queda relevante.
Para Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, a adaptação das organizações criminosas acompanha o padrão histórico de resposta a operações de interdição, com deslocamento de rotas e mudança de método em vez de recuo.
O contexto regional
A ofensiva ocorre em um momento de recomposição política na região. Keiko Fujimori assumiu a Presidência do Peru em 28 de julho, e Abelardo de la Espriella toma posse na Colômbia em 7 de agosto. Os dois países estão entre os principais produtores e pontos de trânsito da cadeia da cocaína.
A Casa Branca defende a continuidade das operações. A vice-secretária de imprensa Anna Kelly afirmou que a campanha atinge organizações classificadas pelo governo americano como grupos terroristas.
A Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) acompanha as mudanças nas rotas em relatórios internos. Um oficial da agência, em declaração ao The Washington Post sob condição de anonimato, relatou o deslocamento do fluxo para corredores terrestres e para o Pacífico.
O governo americano não divulgou balanço consolidado da apreensão total em toneladas no período da operação.