Iêmen atribui aos houthis ataque que matou seis no Mar Vermelho
Ministério dos Transportes do governo reconhecido internacionalmente diz que grupo disparou três mísseis contra o cargueiro Tihamah e voltou a atingir a área durante o resgate
O governo do Iêmen reconhecido internacionalmente atribuiu aos houthis o ataque com mísseis que matou seis pessoas a bordo do cargueiro Tihamah, de bandeira egípcia, no estreito de Bab al-Mandeb, no sul do Mar Vermelho, na terça-feira (11). Segundo o Ministério dos Transportes iemenita, o grupo disparou três mísseis balísticos contra a embarcação e voltou a atingir a área depois que a operação de resgate havia começado.
Quatro tripulantes morreram no primeiro ataque, três deles cidadãos do Paquistão e um da Indonésia, informou o ministério. Outras duas pessoas foram mortas na segunda investida, já durante o socorro. O balanço oficial registra ainda dez feridos, sete deles tripulantes do navio. As informações foram confirmadas pela Guarda Costeira do Iêmen.
O que diz cada lado
"Três nacionais paquistaneses e um indonésio foram mortos após os houthis dispararem três mísseis balísticos", afirmou o Ministério dos Transportes em nota. O órgão acusou o grupo de atingir a embarcação uma segunda vez com a operação de busca e salvamento em andamento, o que, segundo o texto, colocou em risco "as vidas de todos a bordo, incluindo as equipes de resgate".
Os houthis não comentaram oficialmente o episódio. A agência de notícias Saba, controlada pelo grupo, informou ter atacado em Bab al-Mandeb um "navio saudita transportando equipamento militar", sem nomear a embarcação nem mencionar mortes.
Se confirmadas, as mortes são as primeiras registradas no Mar Vermelho desde 20 de julho, quando os houthis anunciaram bloqueio naval a embarcações ligadas à Arábia Saudita, depois do colapso do cessar-fogo firmado em 2022.
Por que o estreito importa
Bab al-Mandeb liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e é a porta de entrada sul da rota que segue até o Canal de Suez. Todo navio que faz o trajeto entre a Ásia e a Europa por Suez precisa cruzar esse ponto, que tem pouco mais de 30 quilômetros de largura no trecho mais estreito.
Quando a rota fica sob risco, os armadores desviam para o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. O desvio acrescenta milhares de quilômetros à viagem, alonga o prazo de entrega e encarece o frete, com efeito direto sobre o custo de produtos importados e sobre o prêmio de seguro cobrado das embarcações que insistem na travessia.
O Brasil não tem no Mar Vermelho a sua rota principal de comércio exterior, mas depende dela em cargas específicas que vêm da Ásia, entre elas fertilizantes, componentes eletrônicos e bens intermediários usados pela indústria. O encarecimento do frete internacional pressiona o preço desses insumos na ponta.
Os ataques a navios comerciais na região se multiplicaram nas últimas semanas. Em 4 de agosto, um cargueiro mercante indiano afundou no Mar Vermelho, na costa do Iêmen, após ser atingido. Os 14 tripulantes, 13 indianos e um iemenita, foram resgatados com vida. No dia seguinte, os houthis afirmaram ter atacado uma embarcação saudita na mesma faixa de mar, e outro navio foi atingido no estreito de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico.
O bloqueio anunciado em 20 de julho foi apresentado pelo grupo como retaliação ao cerco imposto pela Arábia Saudita ao território iemenita. Na prática, ele transformou em alvo declarado qualquer embarcação que os houthis associem ao reino saudita, critério que o grupo aplica sem divulgar a lista de navios enquadrados. O Tihamah navegava sob bandeira egípcia.
O governo iemenita reconhecido internacionalmente opera a partir de Áden, no sul do país, desde que os houthis tomaram a capital, Sanaa, em 2014. É esse governo, e não o grupo que controla o norte, que responde pela guarda costeira e pelas autoridades marítimas citadas no episódio.
O caso do Tihamah foi noticiado por France 24, Al Jazeera, The Jerusalem Post e Middle East Monitor, com variações no balanço divulgado nas primeiras horas. Os relatos iniciais falavam em três a quatro mortos, número depois atualizado pelo governo iemenita para seis, com a contabilização das vítimas do segundo ataque.