EUA revogam visto da embaixadora do Brasil em Washington
Departamento de Estado vincula a decisão à demora do governo brasileiro em conceder o agrément a Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada em Brasília
O governo dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado nesta terça-feira, 4, e amplia a crise diplomática entre os dois países.
Segundo a administração do presidente Donald Trump, a medida responde à demora do governo brasileiro em conceder o agrément a Daniel Perez, indicado para chefiar a embaixada americana em Brasília. O agrément é a aprovação formal que o país anfitrião dá ao nome escolhido por outro Estado antes da posse do embaixador.
Washington acrescentou um segundo motivo. O governo americano atribuiu a decisão também à recusa brasileira, em julho, de conceder vistos a dois representantes dos Estados Unidos.
O que a revogação significa na prática
A medida não implica expulsão. Viotti pode permanecer em território americano, ainda que sem visto válido, situação amparada pelas prerrogativas do cargo diplomático. O Departamento de Estado informou que o documento será restabelecido quando o governo brasileiro conceder o aval a Perez.
Viotti chefia a representação brasileira em Washington desde 2023, quando foi indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ela é a primeira mulher a ocupar o posto. Antes da embaixada nos Estados Unidos, atuou como chefe de gabinete do secretário-geral da Organização das Nações Unidas e como representante permanente do Brasil na ONU.
A revogação de visto de um chefe de missão diplomática em exercício não tem registro conhecido nos mais de 200 anos de relações ininterruptas entre Brasil e Estados Unidos. Casos anteriores de atrito bilateral se resolveram por consultas ou por chamada de embaixador para consultas, sem medida sobre a documentação do representante.
A reação brasileira
Procurado, o Ministério das Relações Exteriores não havia se manifestado sobre o anúncio até a publicação desta reportagem. A informação foi divulgada inicialmente pela CNN e confirmada por veículos brasileiros, entre eles o Correio Braziliense e o Metrópoles.
O impasse em torno de Daniel Perez se arrasta desde a indicação. O agrément é ato discricionário do país que recebe o diplomata, sem prazo fixado em tratado, e a recusa ou a demora não precisam ser justificadas publicamente. Na prática, o instrumento funciona como termômetro da relação entre os governos.
A situação da embaixada americana em Brasília segue sob encarregado de negócios enquanto o nome de Perez não é aprovado, formato que reduz o alcance da representação em negociações de alto nível.
O episódio ocorre em um período de tensão comercial entre os dois países, com disputas tarifárias em curso e questionamentos judiciais nos Estados Unidos sobre medidas adotadas pela Casa Branca. Nenhum dos governos anunciou até agora suspensão de canais de negociação.