Fé e Valores

Entidade de direitos humanos pede que a WTA revogue teste de sexo

Sport & Rights Alliance classifica como discriminatória a exigência de exame do gene SRY anunciada pelo circuito feminino de tênis

A Sport & Rights Alliance, coalizão internacional de entidades de direitos humanos no esporte, pediu na quinta-feira, 13, que a Associação de Tênis Feminino (WTA) revogue a política que exige teste genético das jogadoras para definir quem pode disputar o circuito feminino. A entidade classificou a medida como discriminatória.

A WTA anunciou em julho de 2026 que passará a exigir das tenistas um teste único para identificar a presença do gene SRY, determinante do sexo biológico masculino. A coleta é feita por esfregaço bucal ou exame de sangue, e o resultado passa a valer como critério de elegibilidade para os torneios da categoria feminina.

"A WTA pode alegar que não tem a intenção de causar danos, mas boas intenções nunca apagarão o estigma e o trauma", afirmou Andrea Florence, diretora executiva da Sport & Rights Alliance, em nota divulgada pela coalizão.

A crítica foi acompanhada por entidades que integram o grupo. Para Lily Dong Li Rosengard, especialista sênior em defesa de direitos da ILGA World, a associação "elaborou às pressas uma política que não promove os direitos das mulheres e meninas, mas, ao contrário, prejudica a segurança e a dignidade de todas as pessoas no circuito".

A agência Reuters, que apurou o caso, informou não ter conseguido contato imediato com a WTA para obter comentários sobre o pedido. As informações divulgadas até agora não trazem manifestação da associação.

O precedente do Comitê Olímpico

A decisão da WTA não é isolada. Em março de 2026, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que apenas atletas biologicamente do sexo feminino, com o sexo determinado por um teste único, seriam elegíveis para participar de eventos da categoria feminina nos Jogos Olímpicos.

O critério adotado pelo COI e agora pela WTA é o mesmo: um exame único, cujo resultado não se altera ao longo da carreira da atleta. O gene SRY fica no cromossomo Y e comanda o desenvolvimento das gônadas masculinas no período embrionário, o que faz dele um marcador binário, diferente de parâmetros que variam com o tempo ou com tratamento.

A decisão da WTA alinha o circuito feminino de tênis à posição fixada pelo comitê olímpico em março, e foi anunciada quatro meses depois dela.

O que está em disputa

De um lado, entidades esportivas argumentam que a categoria feminina existe para garantir competição equilibrada e que a definição precisa ser objetiva e verificável. De outro, organizações de direitos humanos sustentam que a exigência de exame genético submete todas as atletas a um procedimento invasivo para atingir um grupo pequeno, com risco de exposição pública de dados médicos.

A Sport & Rights Alliance reúne organizações de direitos humanos, sindicatos de atletas e entidades de defesa de minorias, e atua na cobrança de federações e comitês esportivos. A ILGA World é uma federação internacional de associações que atuam na área de direitos de pessoas LGBT.

A decisão, porém, não está no campo dessas entidades. A WTA organiza o circuito profissional feminino de tênis e define por regulamento próprio quem tem elegibilidade para disputar seus torneios, sem depender de aprovação externa. Uma revogação teria de partir da própria associação ou de decisão judicial em alguma das jurisdições onde os torneios acontecem.

O pedido da coalizão também não tem efeito automático sobre o calendário. Enquanto a política não for revogada ou suspensa, o teste segue como requisito anunciado, e a discussão pública corre em paralelo à aplicação da regra.

A disputa sobre onde o critério de sexo se aplica também tramita no Congresso brasileiro, em propostas que tratam de definição legal de gênero e de proteção a mulheres, como o PL 665/2026, em análise na Câmara.

A política da WTA ainda não tem data divulgada para entrar em vigor no calendário do circuito.

2 visualizações