Para 81% dos brasileiros, é fundamental que o candidato acredite em Deus
Levantamento do LePar/UFF com o Datafolha ouviu 1.500 pessoas; entre os de menor renda, o índice chega a 89%
Oito em cada dez brasileiros consideram fundamental que o candidato em quem votam acredite em Deus, segundo levantamento do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF), apresentado nesta quarta-feira, 19, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O índice é de 81%.
A pesquisa se chama "Religião, política e valores dos brasileiros: entre extremismos e mediações" e foi feita em parceria com o Instituto Datafolha. Foram 1.500 entrevistas presenciais, com margem de erro de três pontos percentuais, entre brasileiros de 18 anos ou mais moradores de municípios com mais de 20 mil habitantes, em todas as regiões do país. Os primeiros resultados do levantamento foram divulgados pela UFF em abril de 2025, e o recorte sobre religião e voto foi apresentado agora, na abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar Sociedade: religião, política e valores. O laboratório não informou o período de campo das entrevistas.
A exigência de fé no candidato varia conforme a renda. Entre quem ganha até um salário mínimo, 89% consideram o requisito fundamental. Na faixa de 10 a 20 salários mínimos, o índice cai para 57%. A diferença de 32 pontos entre os dois extremos é o maior contraste apontado no recorte divulgado.
Outros dois números do levantamento tratam do lugar da crença na vida pública. Do total de entrevistados, 74% concordam que Deus torna as pessoas melhores, percentual que sobe a 86% entre os de menor renda. E 82% defendem que a escola ensine crianças e adolescentes a acreditar em Deus.
A pesquisa também mediu que 54% dos entrevistados defendem um Estado que não seja laico. A Constituição veda à União, aos estados e aos municípios estabelecer cultos religiosos, subvencioná-los ou embaraçar seu funcionamento, no artigo 19.
Confiança nas instituições religiosas
O apreço por Deus não se transfere às igrejas. A Igreja Católica é a instituição religiosa em que os entrevistados mais confiam, com 56%. As igrejas protestantes aparecem com 51%, e os centros kardecistas, com 19%.
Segundo a Agência Brasil, a socióloga Christina Vital, da UFF, que coordena a pesquisa ao lado de Doriam Borges, da Uerj, resumiu o descompasso ao afirmar que "essa valorização significativa de Deus não se traduz em mais confiança nas instituições religiosas".
No mesmo evento, o cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que "existe regularidade estatística entre ser evangélico e votar na extrema direita", conforme a Agência Brasil.
O dado no calendário eleitoral
Os números chegam a menos de dois meses do primeiro turno das eleições gerais, marcado para outubro, quando estarão em disputa a Presidência da República, 54 vagas no Senado, as 513 cadeiras da Câmara, os governos estaduais e as assembleias legislativas.
Candidatos de diferentes campos têm incorporado marcadores religiosos à comunicação de campanha, de citações bíblicas em discursos a agendas em templos. A bancada evangélica é um dos maiores blocos suprapartidários do Congresso e definiu sua liderança para este ano. Leia: Frente Parlamentar Evangélica define liderança para 2026.
A coleta foi presencial, com questionário estruturado de cerca de 30 minutos aplicado em domicílio, formato mais caro e menos usado no país que a entrevista por telefone ou em ponto de fluxo. O desenho da amostra exclui municípios com menos de 20 mil habitantes, recorte que deixa de fora parte da população rural.
O LePar é ligado ao Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da UFF e trabalha com religião, política e cultura desde a década passada. O congresso em que os dados foram apresentados reúne pesquisadores das duas universidades federais fluminenses e da Uerj.
O levantamento do LePar não mede intenção de voto e não está registrado no Tribunal Superior Eleitoral, exigência que vale para pesquisas eleitorais. Trata-se de estudo acadêmico sobre valores, com dados coletados fora do período de campanha.