Eleições 2026

MP Eleitoral pede ao TSE que barre candidatura de Márcio Canella por elo com milícias

Parecer do vice-procurador-geral eleitoral Alexandre Espinosa pede que o tribunal reforme a decisão do TRE-RJ que liberou o registro do deputado estadual eleito

O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na sexta-feira (23), que barre a candidatura de Márcio Canella (União Brasil), deputado estadual eleito no Rio de Janeiro, por suspeita de ligação com milícias e com o Comando Vermelho. O parecer é do vice-procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa, e pede que o TSE reforme a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) que havia liberado o registro.

Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do estado, com 197.178 votos, segundo o Jornal de Brasília. Ele também foi prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Procurado pela reportagem do jornal por telefone e WhatsApp, não se manifestou sobre o parecer.

O que o parecer afirma

Espinosa sustenta que o TSE já tem entendimento consolidado para impedir que políticos ligados a organizações paramilitares disputem eleições, mesmo sem condenação definitiva. A base é o artigo 17 da Constituição, que trata da organização dos partidos e resguarda o regime democrático. Foi o mesmo caminho do TRE-RJ em setembro, quando barrou a candidatura de Cristiane Brasil por vínculo com milícia.

O vice-procurador argumenta que o TRE decidiu sem conhecer as provas do Inquérito 5.020, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e cujo sigilo foi levantado neste mês. Para ele, há “elementos seguros e convergentes” de envolvimento com o crime organizado. Um trecho do parecer, reproduzido pelo Jornal de Brasília:

“É possível afirmar, portanto, a existência de elementos seguros e convergentes que demonstram não apenas a infiltração de lideranças milicianas na administração pública por intermédio do candidato, como também o apoio eleitoral ostensivo por elas prestado à sua campanha e a sua atuação destacada como articulador de organização criminosa armada.”

Os indícios listados no documento incluem:

  • a esposa de um líder do grupo conhecido como Bonde do Jura manteve cargo no gabinete de Canella na Assembleia Legislativa até 2023, e os dois participaram da campanha deste ano, segundo o parecer;
  • em 2025, já como prefeito, ele nomeou para duas secretarias de Belford Roxo líderes de milícias da região, um deles condenado por constituição de milícia;
  • a Operação Barricada Zero, feita para remover obstáculos usados pelo tráfico, teria envolvido acordos informais com o Comando Vermelho, que liberava acessos às comunidades para obras e gravações de vídeo.

Em que pé está o caso

Canella foi preso em 15 de outubro, na oitava fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal (PF). A investigação apura uma rede de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis, com movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos, segundo a Metrópoles. Em julho, na sexta fase, ele já havia sido preso com um fuzil de uso restrito no carro e R$ 919 mil em dinheiro vivo. A defesa não foi localizada pelas reportagens consultadas.

O nome da operação já apareceu na campanha presidencial: em 20 de outubro, o TSE manteve a remoção de posts que ligavam Flávio Bolsonaro à Unha e Carne. O pedido do MPE atinge apenas o registro de Canella e não cita o candidato do PL.

O parecer não é decisão. Cabe ao TSE julgar o caso, e as reportagens consultadas não trazem data de julgamento. O MP Eleitoral contestou mais de mil registros de candidatura nestas eleições, cerca de 5% dos quase 21 mil pedidos, de acordo com balanço da Procuradoria-Geral da República. A informação sobre o parecer foi publicada pelo Jornal de Brasília e pela Metrópoles.