Eleições 2026

Flávio Bolsonaro supera votos do pai em todas as faixas de renda; Lula cai na classe C, mostra Folha

Levantamento cruza o resultado do 1º turno em 468 mil setores censitários com a renda do Censo 2022; Lula só cresce entre os 4% mais ricos

Neste texto4 tópicos
  1. Onde cada candidato vence
  2. A comparação com 2022, por classe
  3. O que dizem os economistas ouvidos
  4. Juros, dívida e redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perdeu votos em quase toda a escala de renda no primeiro turno de 2026 em relação ao mesmo turno de 2022, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu mais votos do que o pai, Jair Bolsonaro, em todas as faixas. É o que mostra levantamento da Folha de S.Paulo publicado nesta terça-feira (13), com base nos 468 mil setores censitários do país.

A única faixa em que Lula avançou foi a dos mais ricos. Entre os 4% de maior renda, o petista cresceu. Nos demais grupos, o recuo foi mais forte justamente na renda média: o pico de perda aparece onde o responsável pelo domicílio ganha cerca de 1,71 salário mínimo, o equivalente a R$ 2,7 mil.

Onde cada candidato vence

O jornal dividiu os setores em 100 grupos de renda de igual tamanho. Lula vence entre os mais pobres, cerca de 42% da população, com ampla margem entre quem ganha até um salário mínimo. A vantagem vai diminuindo até 1,6 salário mínimo. Flávio vence no restante, de 1,6 a 16,3 salários mínimos, conjunto que reúne 68% dos brasileiros.

Os pontos de maior vantagem de cada lado, segundo a Folha:

  • Lula: setores com renda média de 0,7 salário mínimo (R$ 1,1 mil hoje), onde teve 76% dos votos.
  • Flávio: setores de 2,9 salários mínimos (R$ 4,7 mil), com 56%.
  • Grupo mais rico, a partir de 16,2 salários mínimos (cerca de R$ 26,2 mil): Flávio 50%, Lula 39%.

A comparação com 2022, por classe

Pelos critérios da FGV Social, a queda de Lula em relação a 2022 foi de 5,1 pontos percentuais na classe C, 3,9 na D e 3,2 na E. Na B, houve alta de 0,4 ponto, e na A, de 1,6. Flávio, por sua vez, ficou acima de Jair em todas as classes. O maior ganho está na classe C, com 4,9 pontos percentuais, seguida da D (4,5) e da E (4,3).

A divisão usa estudo da FGV Social de 2023, com valores deflacionados pela reportagem para a data do Censo. Nesse critério, a classe A reúne famílias com renda a partir de R$ 14,2 mil, a B vai de R$ 10,9 mil a R$ 14,2 mil, a C de R$ 2,5 mil a R$ 10,9 mil, a D de R$ 1,6 mil a R$ 2,5 mil e a E até R$ 1,5 mil.

O que dizem os economistas ouvidos

Marcelo Neri, da FGV Social, afirma que os dados do trabalhador são bons e comparáveis aos "anos de ouro" da ascensão da classe C: a renda média do trabalho cresceu 26% em termos reais. Segundo ele, o brasileiro "segue endividado", e Neri atribui boa parte do problema às bets. Ele avalia que a proibição das apostas, uma das medidas voltadas à classe C pelo governo, chegou tarde do ponto de vista eleitoral. Entre as demais medidas citadas estão a isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil, o Desenrola e o aumento do Bolsa Família.

O economista Flávio Ataliba, da Universidade Federal do Ceará e do FGV Ibre, calcula que a associação entre renda e voto nos estados é de quase 70%. Ao retirar o Nordeste da amostra, porém, ela "cai muito, fica praticamente insignificante", segundo ele. Acre e Roraima, com votações expressivas em Flávio e indicadores de renda parecidos com os nordestinos, são os exemplos que ele dá. "O efeito de votar no Lula é mais concentrado no Nordeste, mas não é só renda ou pobreza que explicam o voto nele", afirma.

O levantamento também mostra que o padrão varia por estado. Minas Gerais acompanha a tendência nacional. Na Bahia, Lula vence em todas as faixas, com margem menor conforme a renda sobe. No Paraná, ocorre o inverso: Flávio vence em todos os setores, com distância pequena entre os mais pobres e ampla vantagem entre os mais ricos.

Juros, dívida e redes sociais

Para os especialistas citados pela Folha, a melhora de emprego e renda não se converteu em sensação de bem-estar na classe média e na média baixa. Juros altos, endividamento e inadimplência estariam entre as razões. Neri também cita o conservadorismo e novas aspirações de consumo ligadas a influenciadores. "As redes sociais estão começando a governar os mercados eleitorais", diz.

O mapa de renda ajuda a entender a disputa que vem a seguir. Com Flávio à frente na maior parte da escala e Lula concentrando o voto dos mais pobres, o segundo turno de 25 de outubro vai se decidir em boa medida na classe C, que reúne 78% da população e foi onde os dois candidatos mais mexeram nos votos. Em agosto, a simulação de segundo turno do Nexus/BTG, que mostrava Lula com 46% e Flávio com 45%, registrava um quadro bem mais apertado.

A reportagem geolocalizou os locais de votação para cruzar o resultado de cada urna com a renda do setor censitário em que ela fica, com dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE. O texto foi distribuído pela Folhapress e republicado pelo Jornal de Brasília.