Economia

Tesouro quer estrear em títulos em yuan na China ainda neste ano

Subsecretário da Dívida Pública diz que a emissão depende das condições de mercado; carta de intenções foi entregue ao Banco Popular da China em junho

O Tesouro Nacional quer emitir os primeiros títulos da dívida brasileira denominados em yuan no mercado chinês ainda em 2026. A informação foi dada em 5 de agosto pelo subsecretário da Dívida Pública, Francisco Segundo, e publicada pelo portal Poder360. Conhecidos como panda bonds, esses papéis são emitidos por governos e empresas estrangeiras dentro do mercado onshore da China.

"A gente está estudando e vencendo os próximos [passos] e, dependendo das condições de mercado, a República gostaria que a emissão acontecesse ainda neste ano."

O passo formal anterior foi dado em 25 de junho, quando o ministro da Fazenda, Dario Durigan, entregou carta de intenções ao Banco Popular da China, o banco central chinês. O documento é exigência do processo de autorização para emissores estrangeiros no mercado local.

Por que o governo quer emitir em yuan

O argumento central é custo. Emissões de panda bonds pagam juros historicamente entre 1,98% e 4,5% ao ano, patamar bem inferior ao que o Tesouro brasileiro paga em papéis denominados em dólar. A operação também diversifica a base de credores da dívida externa, hoje concentrada em investidores dos Estados Unidos e da Europa.

Há um segundo objetivo, ligado ao setor privado. Sem uma curva soberana de títulos brasileiros em yuan, empresas nacionais enfrentam dificuldade para precificar suas próprias captações na China. A emissão do governo cria o parâmetro de risco soberano que serve de referência para a iniciativa privada.

O precedente brasileiro é da Suzano. Em 2024, a companhia captou 1,2 bilhão de yuans, cerca de US$ 168 milhões, com taxa de 2,80% ao ano e vencimento em três anos. Foi a primeira emissão de uma empresa brasileira nesse mercado.

O que a operação implica

Emitir dívida em moeda estrangeira transfere ao emissor o risco cambial. Se o yuan se valorizar em relação ao real ao longo do prazo do título, o custo efetivo da operação sobe, mesmo com a taxa de juros contratada em patamar baixo. O Tesouro trabalha com instrumentos de proteção cambial para operações desse tipo, mas o desenho final da emissão brasileira ainda não foi divulgado.

A movimentação acompanha a aproximação comercial entre Brasil e China, principal parceiro comercial brasileiro e destino do grosso das exportações de soja, minério de ferro e carne. O acesso ao mercado de capitais chinês amplia o vínculo financeiro entre os dois países, hoje concentrado no fluxo de comércio e em investimento direto.

Os panda bonds se diferenciam dos chamados dim sum bonds, emitidos em yuan mas negociados fora da China continental, principalmente em Hong Kong. O papel emitido no mercado onshore alcança investidores institucionais chineses que não podem comprar títulos no exterior, como fundos de pensão e bancos locais, o que amplia a base de compradores em potencial.

Para acessar esse mercado, o emissor estrangeiro passa por autorização das autoridades chinesas, apresenta demonstrações financeiras em padrão aceito pelo regulador local e aceita a liquidação em moeda chinesa. O processo costuma levar meses entre a manifestação de interesse e a operação efetiva, prazo que explica a cautela do Tesouro ao falar em janela de mercado.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações brasileiras de soja, minério de ferro e carne bovina. O fluxo comercial, porém, é liquidado majoritariamente em dólar. A emissão soberana em yuan aproxima a relação financeira do tamanho da relação comercial e reduz um degrau da intermediação em moeda americana.

O Tesouro não divulgou valor, prazo ou data definida para a operação. Segundo o subsecretário, a decisão depende das condições de mercado no momento da emissão. O órgão também não informou se a estreia será acompanhada de um cronograma de emissões anuais no mercado chinês.

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