Rússia estuda plataforma do Brics para comércio em moedas locais
Proposta tem foco em matérias-primas e commodities e não cria moeda comum; Itamaraty e Fazenda dizem não ter conhecimento oficial
A Rússia estuda criar uma plataforma de comércio dentro do Brics para negociações feitas nas moedas nacionais dos países do bloco, com foco em matérias-primas e commodities. A proposta foi submetida ao comando do governo russo e, se aprovada, seria apresentada aos demais integrantes até o fim de 2026, segundo informação publicada pelo Poder360 no sábado (1º).
O desenho apresentado não cria uma nova divisa. Ele estabelece uma infraestrutura de pagamentos e de trocas comerciais apoiada nas moedas que já existem, o que afasta a proposta da ideia de moeda comum do bloco, discutida em outras ocasiões e nunca formalizada.
De acordo com a proposta, o objetivo é permitir que os países negociem entre si sem passar pelo dólar e reduzir a exposição a decisões de nações que estão fora do bloco. O argumento é operacional antes de ser político: cada conversão para uma moeda de referência acrescenta custo e cria um ponto em que a transação pode ser bloqueada.
O que o governo brasileiro diz
Procurados, o Itamaraty e a Secretaria de Assuntos Internacionais (Sain) do Ministério da Fazenda informaram não ter conhecimento oficial sobre a proposta até o momento. Não houve manifestação sobre o mérito da iniciativa nem indicação de que o tema esteja em negociação em algum canal formal do bloco.
O Brics é hoje formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além dos países que aderiram nas rodadas de ampliação. A adesão a qualquer mecanismo de pagamento depende de decisão de cada governo e, no caso brasileiro, de análise do Banco Central sobre as regras cambiais aplicáveis.
Por que a pauta interessa ao produtor
O recorte da proposta russa recai sobre matérias-primas e commodities, que é exatamente a base da pauta exportadora brasileira. Soja, carne, minério e petróleo respondem pela maior parte do que o país vende ao exterior, e China e Rússia estão entre os destinos e fornecedores relevantes desse fluxo.
Um sistema de liquidação em moedas locais mudaria o custo de operação desse comércio, não o preço da mercadoria. As cotações internacionais de commodities seguem referenciadas em dólar, e a conversão apenas mudaria de lugar na cadeia. O ganho, quando existe, aparece em tarifa bancária, prazo de liquidação e menor dependência de um único canal de mensagens financeiras.
Há também um efeito que não está na proposta e costuma ser atribuído a ela no debate público. Uma plataforma de pagamentos não substitui o dólar como moeda de reserva nem altera a formação de preço das commodities. São camadas distintas do sistema financeiro internacional, e a discussão sobre a primeira não implica mudança na segunda.
Enquanto o tema não avança em canal oficial, a agenda concreta do comércio exterior brasileiro segue definida por tarifas e barreiras já em vigor. O Resenhando tratou do efeito das restrições europeias sobre a carne bovina em reportagem sobre cota chinesa e frigoríficos.