Economia

Brasil e EUA voltam a discutir o tarifaço em encontro do G20 em Milwaukee

Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer se reúnem em 30 de setembro e 1º de outubro; sobretaxa acumulada sobre produtos brasileiros chega a 37,5%

Brasil e Estados Unidos voltam a discutir as tarifas impostas a produtos brasileiros durante o encontro do G20 marcado para 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, nos Estados Unidos. A conversa reúne o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, do USTR.

A informação foi divulgada pela Agência Brasil em 14 de setembro. Será o primeiro encontro presencial entre os dois desde a reunião virtual realizada em 31 de agosto.

A sobretaxa sobre produtos brasileiros foi aplicada em duas etapas. A primeira, de 25%, entrou em vigor em julho e atinge ferro, aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, farmacêuticos, maquinário agrícola e máquinas elétricas. A segunda acrescentou 12,5% a uma lista adicional de produtos, sob a alegação de ausência de mecanismos brasileiros contra trabalho forçado. As duas camadas somadas chegam a 37,5%.

O argumento apresentado pelos Estados Unidos

Ao anunciar as medidas, o USTR sustentou que "certas práticas adotadas pelo Brasil eram descabidas e oneravam ou restringiam o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores estadunidenses".

O argumento apresentado na segunda rodada muda o eixo da disputa. A primeira leva de tarifas foi justificada por desequilíbrio comercial e barreiras a produtos norte-americanos. A segunda invoca padrão trabalhista, tema que abre espaço para exigências regulatórias que não se resolvem com redução de alíquota ou com compra compensatória.

A lista da primeira rodada concentra cadeias de peso na pauta exportadora brasileira. Ferro e aço respondem por parcela relevante das vendas do país aos Estados Unidos, e etanol e açúcar dependem de acesso a mercado externo para escoar excedente de safra.

O que já foi tentado até aqui

As negociações passaram por três canais desde julho. Em 21 de agosto, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump conversaram por telefone durante cerca de uma hora e vinte minutos, em diálogo descrito pelos dois lados como cordial. Em 31 de agosto, Elias Rosa e Greer se reuniram por videoconferência. O encontro do G20 será a terceira etapa.

Enquanto a negociação avança, o governo brasileiro tem operado pelo lado fiscal. Uma medida provisória abriu R$ 18,5 bilhões em crédito para exportadores atingidos, e outra prorrogou por um ano a suspensão de tributos do regime de drawback para o setor.

O efeito da tarifa já aparece em setores específicos. Em julho, a importação de calçados superou a exportação pela primeira vez, movimento que combina a sobretaxa norte-americana com a concorrência de produtos importados no mercado interno.

O Brasil não é o único alvo da política tarifária norte-americana neste ciclo. Outros parceiros comerciais dos Estados Unidos adotaram medidas de reciprocidade ao longo do ano, o que altera o ambiente da mesa de negociação: quanto mais países respondem com tarifa própria, menor o custo político de cada retaliação isolada.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior não divulgou a pauta detalhada da reunião nem indicou se há proposta formal em negociação. O USTR não se manifestou sobre o encontro até a publicação desta reportagem.

A reunião virtual de agosto entre os dois negociadores chegou a ser remarcada antes de acontecer.

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