Setembro Amarelo: saúde aponta as bets como fator de risco para suicídio
Psiquiatras e psicologos relatam pacientes endividados com apostas; famílias perderam R$ 62,5 bi em 2025
Profissionais de saúde mental que atendem pela rede pública e por clínicas privadas passaram a identificar as apostas online como fator de risco em quadros de ideação suicida, segundo reportagem publicada pela Agência Brasil na quinta-feira (10), dentro da campanha do Setembro Amarelo. O relato parte de psiquiatras, psicólogos e de um neurocirurgião que atendem pacientes endividados com bets.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que o tema seja tratado de forma direta no atendimento. "A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos", afirmou.
O neurocirurgião Orlando Maia, do Hospital Quali Ipanema, no Rio de Janeiro, descreve o mecanismo neurológico envolvido na repetição da aposta. Segundo ele, "o sistema de recompensa pode começar a falar mais alto do que os mecanismos de controle das decisões".
A psiquiatra Giovanna Quinet, da Clínica Revitalis, também no Rio, delimita quando o comportamento deixa de ser recreativo: "o problema está principalmente quando o jogo deixa de ser uma atividade eventual". A psicóloga Claudia Feres, que atende em Centro de Apoio Psicossocial no Distrito Federal, integra o grupo de profissionais ouvidos.
O tamanho da perda das famílias
O contexto financeiro do problema já tem número. As famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025, conforme levantamento divulgado por órgãos fazendários estaduais. O dado mede a diferença entre o que foi apostado e o que retornou em prêmios, ou seja, o que ficou com as casas.
A atividade foi regulamentada pela Lei 14.790, de 2023, que criou as apostas de quota fixa em âmbito federal e transferiu à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda a autorização e a fiscalização das empresas. O mercado regulado começou a operar em janeiro de 2025, quando entraram em vigor as regras de autorização e as obrigações de proteção ao consumidor. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que reúne parte das empresas autorizadas, afirma que as operadoras atuam desde então sob regras específicas de jogo responsável e que as ações de comunicação passam por critérios rigorosos.
Levantamentos citados na reportagem apontam ainda que quatro em cada dez mulheres já apostaram ou apostam pela internet, o que desfaz a leitura de que o público de apostas online seja predominantemente masculino.
Os sinais que a rede orienta observar
Os profissionais listam indicadores que pedem atenção de familiares e de colegas de trabalho, e que não são exclusivos de quem aposta:
- desesperança e a sensação de estar sem saída;
- afastamento social e abandono de rotina;
- aumento do consumo de álcool;
- mudanças bruscas de comportamento;
- falas sobre morte, ainda que em tom de brincadeira.
O acolhimento pode ser feito pelo Centro de Valorização da Vida, no telefone 188, que atende 24 horas e de forma gratuita. Em emergência, o Samu atende pelo 192. Na rede pública, os Centros de Atenção Psicossocial fazem o acompanhamento continuado, sem necessidade de encaminhamento prévio.
A procura por atendimento por causa de dívida com apostas já aparece nos serviços públicos. O Resenhando registrou que apostadores endividados têm procurado o SUS e grupos de apoio em busca de tratamento.
No Congresso, tramitam projetos que vão da proibição da publicidade de bets à vedação total da atividade, e a regulamentação da publicidade segue sem definição. A cobrança por dados oficiais sobre a relação entre apostas e saúde mental esbarra na ausência de série histórica: o mercado regulado tem pouco mais de um ano e meio de funcionamento.
Se você está passando por sofrimento emocional, ligue para o CVV no 188 ou acesse cvv.org.br. O atendimento é gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.