CDH ouve especialistas sobre prevenção do suicídio e da automutilação
Audiência requerida por Damares Alves reuniu MEC, Ministério da Saúde, CVV e entidades médicas; endividamento por apostas e ambiente de trabalho dominaram o debate
A Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado ouviu especialistas e representantes do governo federal sobre prevenção da automutilação e do suicídio em audiência pública realizada na quinta-feira (10), em Brasília. O debate teve como eixo a campanha Setembro Amarelo e reuniu propostas sobre escola, ambiente de trabalho e canais de socorro em situação de emergência.
A audiência foi requerida pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), presidente da comissão, que disse pretender ampliar o debate público, reduzir o estigma e estimular a busca por ajuda diante do sofrimento psíquico.
A campanha Setembro Amarelo tornou-se oficial com a sanção da Lei 15.199, em setembro de 2025. A norma fixou 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio e 17 de setembro como Dia Nacional de Prevenção da Automutilação.
Os números apresentados
Na abertura, a senadora apresentou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde:
- mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo, segundo a OMS;
- para cada morte, estima-se que ocorram mais de 20 tentativas;
- entre pessoas de 15 a 29 anos, o suicídio é a terceira principal causa de morte;
- no Brasil, o Ministério da Saúde contabilizou 15.507 mortes por suicídio em 2021, das quais 77,8% entre homens;
- o mesmo levantamento registrou 114.159 notificações de violência autoprovocada, 70% delas envolvendo pessoas do sexo feminino;
- segundo a OMS, em publicação atualizada em 2025, um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos vive com algum transtorno mental.
Esses dados revelam distintos grupos que apresentam diferentes padrões de vulnerabilidade. Por isso, as políticas de prevenção não podem ser uniformes
Escola e ambiente de trabalho
Para Erasto Fortes, coordenador-geral de Políticas Educacionais em Direitos Humanos do Ministério da Educação, o enfrentamento exige abordagem intersetorial, e não apenas sanitária. Ele defendeu a construção de ambientes escolares "seguros, acolhedores, inclusivos e democráticos".
O bullying, a discriminação, o racismo, a violência de gênero, a intolerância, a exclusão social, a humilhação e outras formas de violação não podem ser naturalizadas como episódios menores na vida escolar
Lívia dos Santos Ferreira, auditora fiscal do trabalho e representante do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho (Sinait), apontou fatores ligados ao trabalho, como estressores financeiros e instabilidade de renda. Ela afirmou que mais de meio milhão de trabalhadores foram afastados apenas do serviço público federal em 2025 em decorrência de ansiedade, depressão e burnout.
Cláudia Márcia de Carvalho Soares, presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho (ABMT), lembrou que manter ambiente de trabalho íntegro e seguro é obrigação do empregador prevista na CLT e na Constituição, e que a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) tornou o dever mais objetivo.
Um terço da nossa vida é no ambiente de trabalho. Então ele não pode ser causa de adoecimento e não pode ser causa de agravar um adoecimento
Endividamento por apostas e falta de medicamento
Gabriella de Andrade Boska, coordenadora de gestão da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde, relatou preocupação da pasta com o efeito das apostas esportivas online sobre o número de suicídios no país. Segundo ela, há estudos, inclusive da OMS, que apontam taxa 15 vezes maior de risco entre pessoas endividadas por apostas. A representante também alertou para índice mais alto de casos entre a população negra.
Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), afirmou que o tema segue tratado como tabu e criticou a ausência de medicamento básico na rede pública.
O preconceito estrutural é tão grande que até hoje nós não temos sequer um antidepressivo, como o carbonato de lítio, na Farmácia Popular. Isso é grave
Onde pedir ajuda
Alan Teixeira Lima, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), disse que a entidade tem 2.300 voluntários no Brasil e prestou apoio emocional mais de 2 milhões de vezes no último ano. O CVV atua no país há 64 anos e também mantém grupos de apoio a sobreviventes.
Uma pessoa pode ligar quantas vezes quiser para o CVV. A gente funciona 24 horas, garante o atendimento sigiloso, e o anonimato da pessoa que nos procura, sem julgamento, sem crítica, favorecendo o diálogo
O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também por chat e e-mail. Também participaram da audiência a ex-deputada federal Silvia Waiãpi, o bacharel em Direito Benedito da Vozinha e a assessora parlamentar Lídia Caroline de Carvalho.
O Resenhando publicou nesta temporada a discussão sobre o peso das bets como fator de risco apontado pela área de saúde.
Se você precisa de ajuda, ligue 188 (CVV), a qualquer hora do dia ou da noite. O atendimento é gratuito e sigiloso.