Política

Ciro Nogueira e Júlio Arcoverde mantêm irmã e filho em gabinetes cruzados

Irmã do senador é secretária parlamentar do deputado na Câmara; filho do deputado trabalha no escritório do senador em Teresina

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) mantêm familiares empregados nos gabinetes um do outro no Congresso Nacional. A irmã do senador trabalha no gabinete do deputado na Câmara, e o filho do deputado ocupa cargo no escritório de apoio do senador em Teresina. O arranjo foi revelado nesta segunda-feira, 14, pela coluna Grande Angular, do Metrópoles, a partir dos registros de pessoal das duas Casas.

Alessandra e Silva Nogueira Lima, irmã de Ciro Nogueira, é secretária parlamentar na função SP16 no gabinete de Júlio Arcoverde, na Câmara dos Deputados. Ela tomou posse em 23 de abril de 2025. Em agosto de 2026, recebeu R$ 11.233,68 de remuneração, além de R$ 1.860,44 em auxílios.

Do outro lado, Júlio Ferraz Arcoverde Filho, filho do deputado, é auxiliar parlamentar pleno, na função AP-07, lotado no escritório de apoio do senador em Teresina. Ele trabalha para Ciro Nogueira desde 2020. Em agosto deste ano, recebeu R$ 12.985,57 brutos, o equivalente a R$ 9.737,87 líquidos, mais R$ 1.833,54 de auxílio-alimentação.

O que dizem os dois gabinetes

Procurado pela coluna, o senador Ciro Nogueira não respondeu. O espaço segue aberto para manifestação.

Júlio Arcoverde comentou a contratação do filho sem precisar a data. "Não lembro a data da contratação do meu filho, mas posso lhe garantir que eu não era nem deputado federal, pra você ver quanto tempo faz", afirmou o deputado à Grande Angular.

A regra sobre nepotismo no Legislativo

A Súmula Vinculante 13 do Supremo Tribunal Federal veda a nomeação de cônjuge, companheiro ou parente até o terceiro grau da autoridade nomeante para cargo em comissão na administração pública. A contratação cruzada, em que cada autoridade emprega o parente da outra, é tratada pela jurisprudência como nepotismo cruzado e alcançada pela mesma vedação quando fica demonstrado o ajuste entre as partes.

No caso das duas contratações reveladas pela coluna, não há decisão de órgão de controle sobre o arranjo. Os registros de posse e de remuneração citados são públicos e constam dos portais de transparência da Câmara e do Senado.

Ciro Nogueira e Júlio Arcoverde são do mesmo partido e do mesmo estado. O senador presidiu o PP nacional e foi ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro. O deputado cumpre mandato pelo Piauí.

Os dois já haviam aparecido juntos em outro episódio. Conforme relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelados no âmbito de investigação no Supremo, Júlio Arcoverde e o deputado Átila Lira pagaram faturas de cartões de crédito de Ciro Nogueira em junho de 2024, nos valores de R$ 13,6 mil e R$ 3,4 mil. A anotação nos documentos menciona "artifício para burlar identificação". O senador não se manifestou sobre esse ponto na reportagem.

Na semana passada, a Polícia Federal esteve na residência do senador em Brasília, no âmbito da apuração sobre o Banco Master.

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