Waico e Pax Silica: China e EUA disputam a governança da IA
Iniciativa chinesa reúne 29 países e defende modelos abertos; a americana, com 23 países e a União Europeia, controla a cadeia de semicondutores e minerais críticos
China e Estados Unidos lideram duas iniciativas concorrentes de governança da inteligência artificial, com regras distintas sobre quem tem acesso à tecnologia e em que condições. O Brasil assinou a declaração da proposta chinesa. A comparação entre os dois blocos foi publicada pela Agência Brasil em 1º de agosto.
A Organização Mundial de Cooperação em IA, conhecida pela sigla Waico, foi lançada pela China em julho deste ano, com sede em Xangai. A declaração foi assinada por 29 nações, entre elas Brasil, Rússia, Indonésia, Cazaquistão, África do Sul, Quênia, Etiópia, Moçambique, Venezuela, Cuba, Omã e Paquistão.
A Pax Silica foi lançada pela administração de Donald Trump em dezembro de 2025 e reúne 23 países e a União Europeia. Entre os integrantes iniciais estão Japão, Israel, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, Singapura, Países Baixos e Austrália. Em junho de 2026 entraram Argentina, El Salvador, Chile, Costa Rica, Panamá, Índia, Catar e Filipinas. O objetivo declarado é coordenar uma ordem econômica que sustente uma era de prosperidade impulsionada pela IA.
Modelo aberto contra cadeia de suprimentos
A diferença entre as duas propostas está no que cada uma controla. A Waico defende o desenvolvimento de IA em código aberto, o que permite a qualquer empresa ou organização rodar e adaptar os modelos sem contrato de licenciamento. A Pax Silica organiza o acesso pela cadeia de suprimentos: semicondutores, minerais críticos e energia, distribuídos entre parceiros considerados confiáveis.
Fundador da organização Plures, Ettore Arpini descreve o risco da dependência de um único fornecedor de modelo.
"Digamos que o carro-chefe da economia de um país dependa do modelo de IA do Chat GPT, por exemplo. Pode ser que, de uma hora para outra, uma decisão de Washington bloqueie o acesso a essa IA. Isso pode congelar a economia inteira do país, que fica totalmente dependente e nas mãos, nesse caso, dos EUA ou dessas poucas big techs."
Segundo Arpini, a estratégia chinesa inverte a lógica de restrição adotada pelos americanos. Em vez de concentrar o acesso em aliados confiáveis, Pequim abre os modelos, acumula aliados e propõe uma governança global com todos os países dispostos a participar, sob o argumento de que a tecnologia deve ser tratada como bem comum.
O que muda para quem paga a conta
O custo aparece na diferença entre licenciar e rodar localmente. Arpini afirma que o Brasil paga assinatura para usar o Chat GPT e que, pela iniciativa chinesa, poderia rodar um modelo local e aberto desenvolvido na China. Ele acrescenta que o interesse de Pequim se concretiza no momento em que o país usa infraestrutura e chips fornecidos pela China, e não pelos Estados Unidos.
Professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeu da Silveira aponta o limite dessa alternativa.
"Se a gente não desenvolver capacidades aqui dentro e, principalmente, infraestruturas nossas, a gente não vai conseguir nem se apropriar do conhecimento."
A posição brasileira, segundo a reportagem, é de não depender exclusivamente de nenhum dos dois modelos e manter diálogo com as duas iniciativas, com o argumento da soberania digital. O país assinou a declaração da Waico e não integra a lista de membros da Pax Silica.