Mundo

Departamento de Estado diz que domínio dos EUA nas Américas não será mais questionado

Vídeo oficial publicado nesta terça retoma a Doutrina Monroe, cita a operação que capturou Maduro e é narrado pelo embaixador americano no Panamá

O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nesta terça-feira, 11 de agosto, um vídeo oficial na rede social X em que retoma a Doutrina Monroe e afirma que o domínio americano sobre o Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado. A peça institucional tem cinco minutos e meio e é narrada por Kevin Marino Cabrera, embaixador dos Estados Unidos no Panamá.

O material faz uma reconstituição histórica a partir de 1823, ano em que o presidente James Monroe anunciou a política que ficou associada à fórmula América para os americanos. O lema aparece no vídeo e é usado para ligar a formulação do século 19 às ações do governo de Donald Trump.

O que o vídeo cita

Entre os episódios mencionados está a chamada Operação Resolução Absoluta, que, segundo o próprio material, resultou na entrada em território venezuelano e na captura do presidente Nicolás Maduro, em janeiro de 2026. A menção coloca a ação recente na mesma linha de continuidade histórica do intervencionismo americano na região.

A narrativa do vídeo defende essa continuidade em vez de tratá-la como exceção. É essa a diferença em relação ao discurso diplomático usual de Washington sobre a América Latina, construído em torno de parceria comercial e cooperação em segurança.

O que era a Doutrina Monroe

A doutrina foi anunciada por Monroe em 1823, em mensagem ao Congresso americano, num momento em que vários países latino-americanos haviam acabado de conquistar a independência. O princípio original era a oposição a novas tentativas de colonização ou intervenção europeia nas Américas, em troca da promessa de que os Estados Unidos não interfeririam em assuntos internos da Europa.

Ao longo do século 20, a formulação foi sendo reinterpretada para justificar a atuação americana direta em países do continente. Não é, portanto, um texto de conteúdo fixo: cada governo que a invoca define o alcance prático que quer dar a ela.

A retomada atual já ganhou apelido na cobertura americana. A CNN Brasil registrou o uso do termo Doutrina Donroe para descrever a estratégia do governo Trump de reafirmar a primazia dos Estados Unidos nas Américas, adaptação do nome do presidente ao rótulo original de 1823.

A diferença em relação ao texto de Monroe é de direção. A doutrina original mirava potências europeias e falava em barrar a interferência externa no continente. A leitura apresentada no vídeo trata do controle americano sobre a própria região, com episódio recente de intervenção militar citado como exemplo.

Por que isso importa para o Brasil

A declaração chega em um momento em que a relação comercial entre Brasília e Washington já está tensionada. O Brasil enfrenta desde o início do ano a sobretaxa aplicada pelo governo americano com base na Seção 301, e a negociação sobre a lista de exceções segue em curso.

Uma afirmação de primazia hemisférica no plano oficial altera o pano de fundo dessas conversas. Ela sinaliza que a Casa Branca trata a região como área de influência própria, e não como um conjunto de parceiros em pé de igualdade, o que tende a reduzir o espaço de barganha de qualquer país sul-americano em negociações bilaterais.

O governo brasileiro não havia se manifestado sobre o vídeo até a publicação desta reportagem. O Itamaraty também não divulgou nota sobre o conteúdo da peça.

A leitura da diplomacia

Publicações institucionais desse tipo não têm valor normativo e não mudam tratado nem acordo em vigor. O peso está na sinalização: o que um governo escolhe dizer em canal oficial costuma anteceder o que ele pretende fazer, e serve de referência para embaixadas e para os demais órgãos do próprio Estado americano.

Para os países da região, a leitura prática é sobre o custo de contrariar Washington em temas como narcotráfico, presença chinesa em infraestrutura e votos em organismos multilaterais. O vídeo não detalha medidas, mas define o marco no qual o governo americano quer que esses temas sejam discutidos.

4 visualizações