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Unicef aponta 15 milhões de crianças expostas a conteúdo sexual online

Relatório ouviu 21 mil crianças e adolescentes de 21 países; no Brasil, 19% relataram esse tipo de violência

Cerca de 15 milhões de crianças e adolescentes de 21 países foram expostos a conteúdo sexual indesejado no período de um ano, aponta relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgado nesta semana. No Brasil, 19% dos entrevistados relataram algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia.

O estudo "Pelos Olhos das Crianças: Como as Tecnologias Digitais Facilitam o Abuso Sexual Infantil" foi produzido a partir das percepções de 21 mil crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, de 21 países, entre 2020 e 2025. Os dados foram divulgados pela Agência Brasil.

O número total de vítimas de alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia é estimado em 20 milhões no período de um ano. O relatório calcula ainda que 9 milhões tenham sido induzidas a manter conversas de teor sexual ou a compartilhar imagens contra a vontade e que 4 milhões tiveram imagens vazadas.

Os próprios pesquisadores avaliam que os números são maiores do que os registrados. Mais de 40% das ocorrências informadas durante a coleta não haviam sido reveladas antes pelas vítimas. O principal motivo apontado foi não saber a quem recorrer.

Onde as violações acontecem

As redes sociais concentram a maior parte dos casos. Em média, cerca de 60% das violações ocorreram em plataformas como Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e WhatsApp. Outros 14% aconteceram durante partidas em jogos online.

O relatório registra que o ambiente de jogos é especialmente propício a esse tipo de abuso porque a dinâmica das relações se apoia na exploração da confiança entre jogadores.

Um dado contraria a percepção corrente sobre o tema: 57% dos casos declarados aos pesquisadores envolviam alguém do convívio da criança ou do adolescente, incluindo familiares, conhecidos, amigos e namorados. Ao mesmo tempo, 38% das vítimas encontraram os agressores pela primeira vez na internet, o que o Unicef associa ao uso de contas falsas e de mensagens privadas.

"Essas experiências causam profundo desgaste emocional e mental. Muitas crianças sofrem em silêncio, sem saber ao certo onde procurar ajuda. Nós não podemos ignorar isso", afirmou a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell.

O recorte brasileiro

No Brasil, os 19% de entrevistados atingidos por esse tipo de violência equivalem a quase 3 milhões de crianças e adolescentes, segundo o levantamento. A parcela de ocorrências denunciadas ficou abaixo de 1%.

A distribuição por canal também tem números próprios. A internet respondeu por 55,5% dos casos brasileiros e a escola por 24,5%. Entre os canais digitais, aplicativos de mensagens e redes sociais somaram 66,5%, com Instagram em 57,2% e WhatsApp em 52,1%. Os jogos online apareceram em 12,3%.

O contraste entre a incidência declarada e o índice de denúncia é o ponto que o relatório trata como mais relevante para a formulação de política pública. Um caso que não chega a nenhum canal oficial não entra em estatística, não gera investigação e não produz responsabilização.

O documento reúne relatos das entrevistas. Uma adolescente brasileira descreveu ter sido chantageada pelo agressor, que ameaçava enviar à mãe dela mensagens anteriores caso não recebesse novas imagens. Outra entrevistada contou ter passado anos vasculhando a internet para verificar se alguma imagem sua, inclusive montagens, circulava sem consentimento.

O relatório recomenda que governos e plataformas ampliem os canais de denúncia e informem crianças e adolescentes sobre onde buscar ajuda, ponto que os próprios entrevistados indicaram como a principal lacuna. O Unicef não divulgou estimativa de subnotificação por país.

No Brasil, a moldura legal foi reforçada ao longo do último ano. Em 2026 entrou em vigor a lei que aumenta as penas para crime sexual contra criança e adolescente praticado na internet, e outra norma passou a punir o uso de inteligência artificial na produção desse tipo de material.

A fiscalização, porém, ainda não está de pé. Segundo a Agência Brasil, o cronograma de aplicação efetiva do chamado ECA Digital pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados só prevê fiscalização em 2027. Até lá, a responsabilidade prática de identificar e remover conteúdo segue concentrada nas próprias plataformas, as mesmas que concentram 60% das violações medidas pelo Unicef.

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