Economia

Varejo corta 45,9 mil vagas no semestre e destoa do resto do mercado

Pior resultado desde 2020 no setor, enquanto a economia gerou 921 mil empregos líquidos; vestuário responde por dois terços do corte

O comércio varejista brasileiro fechou 45,9 mil postos de trabalho com carteira assinada no primeiro semestre de 2026, o pior resultado para o período desde 2020, enquanto o mercado de trabalho como um todo gerou 921 mil empregos líquidos no mesmo intervalo. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e foram divulgados nesta sexta-feira, 21, em levantamento da Folhapress.

No primeiro semestre de 2025, o mesmo setor havia criado 23,7 mil vagas. O varejo responde por 68% do estoque de empregos do comércio e só teve saldo positivo em três meses deste ano: março, maio e junho.

Entre os grandes setores da economia, o comércio foi o único a eliminar vagas no semestre, com saldo negativo de 3.500 postos. Serviços criaram 571,9 mil, construção 168,9 mil, indústria 143,4 mil e agropecuária 40,8 mil.

Onde os cortes se concentraram

As lojas de artigos de vestuário e acessórios sozinhas cortaram 30,9 mil vagas nos seis primeiros meses, mais de dois terços de todo o saldo negativo do setor. Em seguida aparecem as lojas de calçados, com 11,3 mil postos fechados, e supermercados e hipermercados, com corte de 5,6 mil.

O rombo não foi maior porque o comércio inclui também a venda de automóveis e motos, impulsionada pelo uso de aplicativos de entrega e transporte, e os atacadistas, menos expostos ao endividamento das famílias.

Especialistas ouvidos no levantamento apontam a combinação de juros altos, economia perdendo força, avanço das bets sobre a renda e migração do consumidor para o comércio eletrônico.

Dados do Banco Central dimensionam o aperto do crédito. A taxa de juros a pessoas físicas com recursos livres, medida que exclui financiamento imobiliário e rural, ficou em 64% ao ano em junho, contra 59,4% um ano antes. No cartão de crédito, a taxa está em 97,4% ao ano, ante 92,1% em junho de 2025.

"O financiamento ao consumo ficou ainda mais caro, e isso pesa em setores de bens duráveis, como eletroeletrônicos e móveis, que dependem muito de parcelamento", afirma o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence.

O que vem pela frente

A tendência apontada pelos analistas é de desempenho fraco nos próximos meses, mesmo com o segundo semestre sendo tradicionalmente melhor para a contratação no comércio. Imaizumi estima que o setor encerre 2026 com saldo líquido de vagas formais próximo de zero.

Pesa nessa conta a demissão de cerca de 3.000 funcionários pela Casas Bahia, que pediu recuperação judicial no domingo, 16, e anunciou o fechamento de 298 lojas. O efeito dessas saídas ainda não aparece integralmente nos números do semestre.

Para Daniel Duque, economista do FGV Ibre, o problema não está restrito a uma empresa. "Não é só a Casas Bahia que está sofrendo, é o varejo como um todo", afirma. Ele cita o avanço das apostas on-line entre os fatores que reduzem o dinheiro disponível para consumo nas lojas.

O contraste com o resto do mercado de trabalho é o dado que chama atenção no levantamento: o país segue com taxa de desemprego em mínimas históricas e criação líquida de vagas, mas o setor que emprega no balcão perde postos.

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