Economia

Saídas fiscais do Brasil crescem 80% em cinco anos e somam 46,6 mil

Dados da Receita Federal mostram salto de 25.797 registros em 2021 para 46.603 até 19 de agosto deste ano; EUA e Portugal lideram os destinos

O número de brasileiros que formalizaram a saída fiscal do país chegou a 46.603 até 19 de agosto de 2026, alta de 80% sobre os 25.797 registrados em 2021. Os dados são da Receita Federal e foram divulgados nesta quinta-feira, 20, pelo Poder360.

Saída fiscal é a renúncia ao domicílio tributário no Brasil. Quem comunica a saída definitiva deixa de ser residente fiscal e passa a ter os rendimentos de fonte estrangeira fora do alcance do Imposto de Renda brasileiro. Os ganhos de fonte brasileira continuam tributados, mas na regra aplicada a não residentes, com retenção exclusiva na fonte.

A comunicação é feita à Receita Federal e antecede a Declaração de Saída Definitiva do País. O registro de um ano se refere, na prática, ao exercício anterior: a declaração é entregue no ano seguinte ao da saída.

Os Estados Unidos são o principal destino em 2026, com 11.934 casos. Portugal aparece em segundo, com 8.821, e o Canadá em terceiro, com 2.929.

Na origem, o movimento se concentra nos três estados mais ricos do país. São Paulo responde por 17.700 saídas fiscais, o Rio de Janeiro por 5.800 e Minas Gerais por 4.300.

O que diz a Receita Federal

Em nota divulgada depois da repercussão dos dados, a Receita Federal afirmou que o aumento das regularizações não representa "um dado atípico ou, isoladamente, uma situação de preocupação" para o órgão. Segundo o Fisco, parte do crescimento vem de brasileiros que já viviam no exterior e só depois formalizaram a condição de não residente.

O órgão atribui o movimento a ações de orientação dos últimos anos e a medidas sobre regularização de ativos mantidos fora do Brasil, entre elas as regras sobre offshores, o Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária (RERCT) e o Regime Especial de Regularização de Ativos (RERAP).

A quantidade de comunicações de saída definitiva não corresponde necessariamente ao número de brasileiros que deixaram o país durante os anos analisados.

A Receita também afirmou que os registros "continuam representando uma parcela marginal diante do total de contribuintes brasileiros domiciliados no país" e desmentiu a circulação de informações sobre um suposto rastreamento de brasileiros residentes no exterior.

Por que o número interessa

A saída fiscal é um indicador incômodo por natureza: ela mede quantos contribuintes decidiram, formalmente, tirar o próprio patrimônio e a própria renda do alcance da tributação brasileira. Não é emigração. É uma escolha registrada em cartório digital do Fisco, com data e destino.

O ritmo importa mais que o total. Em cinco anos, o volume anual quase dobrou, num período em que o país discutiu tributação de dividendos, imposto mínimo sobre altas rendas, taxação de fundos exclusivos e mudanças nas regras de offshores. A Receita, por outro lado, sustenta que boa parte do salto é efeito das próprias campanhas de regularização, que trouxeram para o registro quem já morava fora sem ter comunicado nada.

As duas leituras não se excluem, e nenhuma delas pode ser confirmada apenas com o número agregado. O que a Receita divulga é a contagem de comunicações, sem separar quem saiu no ano de quem apenas regularizou uma situação antiga. Sem essa abertura, o dado mostra a tendência, não a causa.

A contagem de 2026 vai até 19 de agosto e ainda deve crescer até o fim do ano. Para quem deixou o Brasil em 2025, a Comunicação de Saída Definitiva tinha prazo até o último dia útil de fevereiro de 2026, e a declaração seguiu o calendário regular do Imposto de Renda, encerrado em 29 de maio.

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