Governo central tem superávit em julho, mas déficit de R$ 80,3 bi no ano
Estimativa preliminar do Ipea aponta superávit primário de R$ 11 bilhões no mês; resultado oficial do Tesouro só sai no fim de agosto
O governo central registrou superávit primário de R$ 11,0 bilhões em julho, mas segue no vermelho em R$ 80,3 bilhões no acumulado do ano, segundo estimativa preliminar do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicada na Carta de Conjuntura de 12 de agosto. O resultado oficial do período, apurado pelo Tesouro Nacional, só será divulgado no fim deste mês.
O número do acumulado é pior que o do ano passado. De janeiro a julho de 2025, o déficit havia sido de R$ 71,5 bilhões, a preços de julho de 2026. A diferença é de R$ 8,8 bilhões em doze meses, já corrigida pela inflação.
A estimativa é assinada pelo pesquisador Sérgio Fonseca Ferreira e trabalha com dados do Siafi, o sistema que registra a execução orçamentária federal. O governo central reúne Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central, e é o recorte usado para medir o cumprimento da meta fiscal.
O que sustentou o resultado de julho
Pelos números do Ipea, a receita líquida de julho somou R$ 226,2 bilhões, alta real de 7,6% sobre o mesmo mês de 2025. A despesa total ficou em R$ 215,2 bilhões, queda real de 20,8% na mesma comparação.
A retração da despesa é o dado que mais chama atenção na estimativa, e ela precisa ser lida com cuidado: comparações mensais de gasto público são sensíveis ao calendário de pagamentos. Um mês em que precatórios, restos a pagar ou parcelas de benefício caem em data diferente da do ano anterior produz variação percentual grande sem que a trajetória de fundo tenha mudado. O acumulado do ano, que segue R$ 8,8 bilhões pior que o de 2025, é o indicador menos sujeito a esse efeito.
Por que o número ainda não é o oficial
Há dois calendários distintos em jogo. O Ipea publica sua estimativa preliminar por volta do dia 12 de cada mês, a partir do Siafi. O Tesouro Nacional divulga o Resultado do Tesouro Nacional, o RTN, no fim do mês seguinte ao de referência. O RTN de junho, por exemplo, saiu em 30 de julho.
Entre uma data e outra, a estimativa do Ipea é o único número disponível sobre o mês fechado, e por isso precisa ser atribuída ao instituto, não ao Tesouro. Revisões entre a estimativa preliminar e o dado oficial são comuns.
O último dado oficial disponível é o de junho. Naquele mês, segundo o RTN divulgado em 30 de julho, o governo central teve déficit primário de R$ 48,2 bilhões. O bloco Tesouro mais Banco Central fechou com superávit de R$ 2,3 bilhões, enquanto o Regime Geral de Previdência Social registrou déficit de R$ 50,5 bilhões. No primeiro semestre, o déficit acumulado era de R$ 92,2 bilhões.
A composição de junho mostra onde está o rombo: a arrecadação e a despesa administradas diretamente pelo Tesouro ficaram no azul, e o resultado negativo veio inteiramente da Previdência. É o item de gasto que menos responde a corte discricionário, porque é despesa obrigatória vinculada a benefício já concedido.
Procurados, o Ministério da Fazenda e o Tesouro Nacional não haviam se manifestado sobre a estimativa até a publicação desta reportagem. A Carta de Conjuntura do Ipea está disponível no site do instituto, e o RTN de julho será publicado no portal do Tesouro Transparente.
Em agosto, o dado fiscal mais recente antes da estimativa era o Prisma Fiscal, boletim de projeções de mercado coletado pela Fazenda, divulgado em 14 de agosto, que aponta déficit primário de R$ 59,145 bilhões para o fechamento de 2026. É uma projeção de analistas de mercado, não uma apuração de execução, e serve como termômetro de expectativa, não como resultado.