Justiça das Ilhas Cayman liquida holding que recebeu R$ 700 mi do Master
Titan Capital passa ao controle de liquidantes nomeados pela Suprema Corte do território; Interpol foi acionada por alerta prata
A Suprema Corte das Ilhas Cayman determinou a liquidação da Titan Capital, holding sediada no território britânico que recebeu recursos do Banco Master nos meses que antecederam a quebra da instituição financeira. A decisão, informada nesta quarta-feira, 12, pela Gazeta do Povo, transfere o controle das contas bancárias e dos bens da empresa a liquidantes nomeados pela justiça local.
Com a liquidação, auditores designados pelo tribunal passam a ter acesso à contabilidade, aos ativos e ao histórico de transferências da holding. É esse acervo que interessa às autoridades brasileiras que investigam o destino do dinheiro do banco.
Segundo o levantamento reproduzido pelo jornal, cerca de R$ 700 milhões saíram do Banco Master em direção à holding entre janeiro e julho de 2025. As transferências ocorreram antes da liquidação extrajudicial da instituição, decretada pelo Banco Central em novembro daquele ano.
A Titan Capital aparece nos autos como peça central de um esvaziamento patrimonial planejado, na descrição usada no processo. A estrutura acumula ainda cobranças de credores: uma empresa de criptomoedas reivindica um empréstimo de R$ 1,5 bilhão, e o Grupo Fictor transferiu R$ 30 milhões à holding.
Como a decisão chega ao caso brasileiro
A liquidação no exterior abre caminho para rastrear recursos que estão fora do alcance direto da Justiça brasileira. A Interpol foi acionada por meio da Silver Notice, o alerta prata, instrumento criado para localizar bens ligados a crimes financeiros em outras jurisdições.
O empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso em novembro de 2025, no âmbito da investigação sobre lavagem de dinheiro que levou à liquidação do banco. Em 4 de março deste ano, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e outras três pessoas em São Paulo, em desdobramento que apura a atuação de um grupo armado a serviço do esquema, conforme registrou a revista Consultor Jurídico.
A defesa do empresário sustenta, em manifestações públicas, que as investigações se apoiam em fato inexistente. Procurados pela reportagem que revelou a decisão de Cayman, os representantes do empresário não apresentaram nova manifestação sobre a liquidação da holding.
O que os liquidantes podem fazer
Na prática, os profissionais nomeados pela Suprema Corte das Ilhas Cayman assumem a administração da empresa no lugar de seus controladores. Cabe a eles:
- tomar posse das contas bancárias e dos ativos registrados em nome da holding
- levantar o passivo e habilitar os credores que se apresentarem
- reconstituir o histórico das transferências recebidas e enviadas
- responder a pedidos de cooperação jurídica internacional
Esse último ponto é o que interessa diretamente às autoridades brasileiras. Enquanto a holding estava sob controle dos próprios sócios, pedidos de informação esbarravam nas regras de sigilo do território. Com a empresa em liquidação judicial, o interlocutor das autoridades passa a ser um agente nomeado pelo tribunal, com dever de prestar contas ao juízo.
A Silver Notice é a categoria mais recente de alerta da Interpol, voltada à localização e ao rastreamento de bens ligados a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro, fraude e corrupção. Diferentemente da Red Notice, que pede a localização de pessoas para fins de prisão, o alerta prata mira o patrimônio e serve para pedir a países-membros informação sobre ativos identificados em seus territórios.
As Ilhas Cayman não cobram imposto de renda sobre lucros corporativos e mantêm regras próprias de confidencialidade societária, o que historicamente atrai estruturas de participação. O território integra acordos de troca de informações fiscais e, em processos de liquidação, admite a cooperação com autoridades estrangeiras.
O caso Master é o maior processo de liquidação bancária em curso no país e desdobrou-se em frentes na Polícia Federal, no Ministério Público e no Supremo Tribunal Federal. A rota do dinheiro que saiu do banco antes da quebra é o ponto comum entre elas.