Estatais acumulam déficit recorde de R$ 7,4 bilhões até maio, diz Banco Central
Resultado é mais que o dobro do registrado no mesmo período de 2025 e o pior da série histórica iniciada em 2002; empresas federais respondem pela maior parte do rombo
As empresas estatais acumularam déficit primário de R$ 7,4 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026, segundo dados do Banco Central. O valor é mais que o dobro do registrado no mesmo período de 2025, quando o rombo somava R$ 3,6 bilhões, e representa o pior resultado da série histórica iniciada em 2002.
No acumulado de 12 meses, o déficit chega a R$ 9,7 bilhões.
Quem responde pelo rombo
O peso maior está nas empresas controladas pela União. Apenas no primeiro trimestre, as estatais federais registraram déficit de R$ 4,4 bilhões, crescimento de 151,2% sobre os R$ 1,8 bilhão do mesmo intervalo de 2025 e o maior valor nominal desde o início da série.
As estaduais fecharam o trimestre com saldo negativo de R$ 1,5 bilhão, também o nível mais alto já registrado para o período.
Vale um detalhe metodológico que muda a leitura do número: o indicador do Banco Central não inclui a Petrobras nem os bancos públicos. O argumento da autoridade monetária é medir o impacto das estatais sobre a política fiscal, deixando de fora as instituições financeiras. Ou seja, o resultado divulgado retrata o desempenho das demais empresas, aquelas que dependem mais diretamente do caixa do Tesouro.
O que explica a deterioração
O déficit primário mede a diferença entre receitas e despesas sem contar os juros da dívida. Quando uma estatal opera no vermelho nessa conta, a empresa deixa de contribuir para o esforço fiscal e passa a demandar aporte, garantia ou empréstimo com aval da União.
O caso dos Correios é o mais citado no debate. A estatal acumulou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e recorreu a empréstimos bilionários com garantia da União para manter o caixa, em meio à concorrência do setor privado de logística.
Analistas apontam ainda dois fatores estruturais que ajudam a explicar a curva:
- o afrouxamento de critérios de indicação para cargos de direção após mudanças na Lei das Estatais, que ampliou o espaço para nomeação política;
- a orientação de gestão que prioriza objetivos sociais e tarifários sobre resultado financeiro.
Quanto isso custa ao contribuinte
Estatal deficitária não quebra: ela é socorrida. O caminho costuma passar por aumento de capital, empréstimo com garantia do Tesouro ou postergação de investimento, e as três alternativas terminam no orçamento público, que já opera sob pressão.
O contraste com a arrecadação chama atenção. Enquanto a receita federal bate recorde, o resultado das empresas públicas puxa o consolidado na direção oposta, o que estreita a margem para cumprir a meta fiscal do ano sem novas fontes de receita.
O que acompanhar
O Banco Central atualiza a estatística mensalmente, dentro do relatório de estatísticas fiscais. Três pontos merecem atenção nos próximos meses:
- a evolução do resultado das federais, que concentram o desequilíbrio;
- os balanços trimestrais das empresas com prejuízo recorrente;
- os pedidos de aval do Tesouro para novas operações de crédito.
A pressão sobre as contas públicas não vem de uma única fonte. Ela combina despesa obrigatória em alta, custo do crédito e resultado das empresas estatais, como mostram também os dados do BC sobre o juro cobrado das famílias.