Economia

Tarifaço atinge 47,3% das exportações brasileiras aos EUA; Ipea lembra déficit do Brasil desde 2008

Em audiência na Comissão de Meio Ambiente do Senado, o governo contestou a sobretaxa de 25% ligada ao desmatamento e especialistas debateram as terras-raras

A Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado discutiu nesta quinta-feira, 22, o tarifaço dos Estados Unidos e a exploração de terras-raras no Brasil, em audiência pública presidida pela senadora Leany Lemos (PSB-DF). Segundo os números apresentados à comissão, 47,3% das exportações brasileiras ao mercado americano estão sujeitas a tarifas extras de até 37,5%, taxas que não existiam em 2024.

O governo brasileiro estima em US$ 19,1 bilhões o valor das vendas atingidas, de acordo com a Agência Senado. Os Estados Unidos anunciam tarifas sucessivas desde março de 2025. As mais altas vieram em julho do ano passado, quando algumas alíquotas específicas chegaram a 50%. Neste ano, o governo americano aplicou ainda uma sobretaxa de 25% a uma série de produtos brasileiros, a partir de julho.

Leany Lemos, que pediu a audiência por meio dos requerimentos 20 e 21 de 2026, disse que o governo de Donald Trump trata a política comercial como "arma para atingir os seus interesses" e vê o Brasil como "quintal".

"Estamos falando de soberania nacional e do direito e do dever de decidirmos livremente os nossos caminhos e o destino das nossas riquezas." (senadora Leany Lemos)

O argumento do Ipea sobre o déficit

O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Renato Baumann afirmou que o objetivo das tarifas é forçar negociações que resultem em mais investimentos nos Estados Unidos. Os americanos, disse ele, são grandes fornecedores de serviços, mas não de investimentos e infraestrutura.

Baumann lembrou que o argumento de que os parceiros exportam mais do que importam não vale para o caso brasileiro: o Brasil registra déficit comercial com os Estados Unidos desde 2008. Para o pesquisador, trata-se de "uma estratégia eleitoral, ideológica e comportamental" que "não se sustenta".

O representante do Ministério do Meio Ambiente André Rodolfo de Lima contestou a justificativa ambiental da sobretaxa de 25%. Segundo o governo americano, o Estado brasileiro falhou na fiscalização do desmatamento, o que teria favorecido o agronegócio nacional em prejuízo do setor dos Estados Unidos. Lima chamou a tese de "grande falácia" e citou queda de 75,4% no desmatamento da Amazônia entre 2022 e 2026, ligada, segundo ele, à adesão de 80 municípios a um programa da União no âmbito do Fundo Amazônia. O texto da Agência Senado não registra manifestação do governo dos Estados Unidos sobre a audiência.

Terras-raras: ímãs em vez de minério bruto

A segunda parte do debate tratou das terras-raras. O Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, atrás da China, que segundo a cientista política Luíza Gimenez Cerioli dominou grande parte do processamento desses minerais nas últimas décadas. Ela vê nisso uma "geopolitização": o tema deixou de ser só comercial e passou a ser tratado como questão de poder e segurança. Os minerais entram, por exemplo, em componentes de data centers e em drones militares.

O professor Fernando Landgraf, da Universidade de São Paulo (USP), defendeu que o país monte uma fábrica de ímãs em vez de vender o material bruto. Ele estimou em cerca de dez anos o prazo para dar lucro nesse mercado e observou que há menos de dez fábricas de ímãs fora da China. Também citou a Política Nacional de Minerais Críticos, sancionada em setembro.

Cerioli alertou que o processamento consome muita energia e água e pode gerar conflitos locais. Para ela, o Brasil só ganha se transformar o recurso mineral em capacidade industrial.

Também participaram da audiência Herlon Brandão, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Fabrizio Panzini, da Amcham Brasil, e Roberto Furian Ardenghy, do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis. A Agência Senado não detalha as falas dos três. Sobre o efeito do tarifaço na indústria, o Resenhando já noticiou o pacote de resposta entregue pelas centrais sindicais ao governo e a avaliação de que a judicialização reduz o poder de barganha americano.