Cultura

UFRJ revoga honoris causa de embaixador dos EUA no golpe de 1964

Conselho Universitário decidiu por unanimidade cassar o título dado em 1968 a Lincoln Gordon, chefe da embaixada americana no Brasil entre 1961 e 1966

O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) decidiu, na quinta-feira, 13, revogar o título de Doutor Honoris Causa concedido em 1968 ao diplomata americano Lincoln Gordon. A decisão foi unânime e encerra uma honraria acadêmica mantida por 58 anos.

Gordon chefiou a embaixada dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966. A revogação se apoia na acusação de que ele participou do planejamento do golpe de Estado de 1964, que depôs o presidente João Goulart e abriu o ciclo de governos militares encerrado em 1985.

O título de Doutor Honoris Causa é a mais alta distinção que uma universidade concede a quem não integra seus quadros. A revogação é medida rara no Brasil e depende de deliberação do colegiado máximo da instituição, no caso da UFRJ o Conselho Universitário, formado por dirigentes, docentes, técnicos e estudantes.

Quem foi Lincoln Gordon

Economista formado em Harvard, Gordon foi nomeado embaixador no Brasil pelo presidente John Kennedy em 1961 e permaneceu no posto até 1966, já sob Lyndon Johnson. Depois de deixar o Rio, foi secretário de Estado adjunto para Assuntos Interamericanos e presidiu a Universidade Johns Hopkins.

Sua atuação no período que antecedeu a deposição de Goulart é tema de documentação americana desclassificada ao longo das décadas seguintes. Entre os episódios mais citados está a Operação Brother Sam, plano militar que previa o deslocamento de uma força-tarefa naval em direção ao litoral brasileiro para apoiar os militares brasileiros caso houvesse resistência ao movimento de 1964. Registros da operação constam dos arquivos do governo Johnson.

Gordon negou em entrevistas ao longo da vida ter participado da articulação do golpe e sustentou que a iniciativa foi inteiramente brasileira. Ele morreu em 2009, aos 96 anos, nos Estados Unidos.

O que a decisão alcança

A revogação tem efeito simbólico e institucional. Retira o nome do diplomata da relação de homenageados da universidade e cria precedente para pedidos semelhantes envolvendo outras honrarias concedidas durante o regime militar, tanto na UFRJ quanto em outras instituições federais.

O Palácio Universitário da UFRJ, na Urca, e o campus da Ilha do Fundão concentram a estrutura de uma das maiores universidades federais do país. A instituição foi criada em 1920 como Universidade do Rio de Janeiro e passou a se chamar Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1965.

A concessão do título a Gordon, em 1968, ocorreu quatro anos após o golpe e no mesmo ano em que foi editado o Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus para crimes políticos e ampliou a censura. O período foi marcado por intervenções nas universidades, com aposentadorias compulsórias e cassação de professores.

A universidade não divulgou o nome de quem apresentou a proposta ao Conselho nem informou se há outros títulos sob revisão. A embaixada dos Estados Unidos no Brasil não se manifestou publicamente sobre a decisão até a publicação desta reportagem.

A medida ocorre em um momento de tensão nas relações entre Brasília e Washington, marcado pela disputa comercial aberta com a aplicação de tarifas americanas a produtos brasileiros e pela resposta do governo brasileiro pela via da reciprocidade.

Leia também: Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor.

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